Manoel Ricardo de Lima*, JB Online
RIO - O escultor Eduardo Frota – apontado por Paulo Herkenhoff como um artista que “infunde nos objetos um estatuto de provocador de crises” – diz que seu trabalho atravessa uma idéia da linha, e que esta linha que lhe interessa está muito próxima do poema (e aí leia-se tanto Joaquim Cardozo ou João Cabral de Melo Neto atravessando também Murilo Mendes ou Jorge de Lima e depois e depois etc., esta série não tem fim) porque gosta de ler histórias, mas não a história como categoria, dado, mas a história com um caráter imaginativo e transbordante, vária e avariada. Como invenção num outro sentido para uma poética, uma especulação do sentido, um processo de instauração do devir e das possibilidades de mundo, de vida.
Nenhuma novidade até aí, mas a força deste pensamento de Eduardo Frota está no impulso da potência de seu trabalho: não abrir mão da possibilidade de provocar a crise, e se não for isso que se dane o jogo. A questão é não topar o jogo, não armar a repetição do discurso para compor uma fala amistosa e ser favorecido por ela com lugar e afago. O ponto é, diz ele, “inventar, desvendar, apresentar possibilidades, o trabalho como uma outra maquinação poética do mundo, no mundo e para um mundo, num fluxo/refluxo paradoxal de alargamento da borda e até mesmo de esquecimento das bordas”.
Leque vasto
É possível pensar, a partir daí, em muito da produção de poesia no Brasil com seus poucos limites e quase nada de seus poucos confins. Sem nenhum vetor a menos ou a mais, sem nenhuma hierarquia. A questão é por onde se pode arejar os procedimentos da produção e o pensamento crítico acerca da produção, com alguma ciência do tamanho que somos como distância e abrangência, sem cair nas tentativas de filiação e ajuste, mas algo como “tentar sair do ateliê”, ver lá fora. Porque o leque é vasto e intenso, pode-se dizer; mas ao mesmo tempo pode-se dizer que é o mesmo e precário, e não mover um dedo. E se poesia é uma expansão do impasse, estamos diante de uma variante deles. Dois livros de poemas recentes e muito diferentes podem ser lidos como percepção destes impasses, de um processo perceptivo da história como inacabada, possível, entre existência crítica e “porção utópica” (pra usar outra expressão de Eduardo Frota): Vinte e sete de janeiro (Lumme. 52 páginas. R$ 28), de Carlos Augusto Lima e Horas perplexas (Editora 34, 80 páginas. R$ 23), de Reynaldo Damazio.
Carlos Augusto Lima propõe em seus poemas sem título que não há como salvar o nome que falta, nem muito menos o lugar marcado, nem a história. Sua poesia tem muito mais a ver com um enfrentamento, com o que perde a cor ao redor de seu próprio sumiço como sujeito, e se provoca a crise. Numa tentativa de montagem, como saída, dos entornos da cidade, do bairro, da rua, da vida miúda, pequena, procura discutir uma questão política para “uma comunidade que vem” naquilo que chama de “busca estúpida” e de “desaparecimento”. O poema entra num rodopio de invenção da história naquilo que a história não é. Em alguns versos, aparece o prisma: “os meninos brincam. / a via-crucis tem muito de circo, / de maravilhoso e rancor aos seis anos de idade”; “o interfone gago sublinha uma visita. / mas é alguém que oferta um doce, / pão quente, favor e milho.”; “o canto dos pentecostais ribomba / no quintal vizinho, glória e senhor / e salvação e louvor. / invento soletrar um hebraico impossível / invento um gargarejo deprecatório / cínico. / o alarido na área de serviço.”; “pois a janela desfolha o bairro / (...) / a louca que canta dez para meia-noite. / não há judeus nem árabes aqui / nem tailandeses ilegais num barco / de bandeira malaia / mulheres de camisola estendem cadeiras”; “apaixonado por um kipling desmiolado / comprimindo cabeças, vudu, a copa das árvores, sair / de casa é tonto. / preciso comprar umas coisas aqui no / mercado. me chame sir burton, odisseu / da esquina / aníbal pilotando insetos. / me chame de um nome comum”.
Silêncio aberto
O livro de Reynaldo Damazio, desde o título, num silêncio aberto para o espanto e para a antinomia, como também parece ser a sua postura como poeta, encara a ausência do choque como uma desolação do tempo – “a poesia toda cabe / nesta ostra / no óvulo estéril” – a ausência do poema, entre uma tradição sem sentido algum e algumas pendências, como um sem número de pactos soltos no espaço – “deixar a ruína como rastro, / orar pela compensação dos males” – até roçar a ausência plena de qualquer esperança, que bem pode ou poderia ser o próprio poema ou o sem lugar do poeta. Como no poema “The blind men”, que lembra e muito uns blues de Lonnie Johnson – Don't drive me from your door, por exemplo – ao dizer que “Estamos cegos / as imagens são excessivas” para provocar uma explosão da retina, da casa, da memória, de algum ou qualquer espaço aberto e afetivo de nossas imprecisões: “cada um é muitos / e todos são ninguém” e “a casa se curva ao / peso da memória como se o / corpo que o menino (agora crescido) / traz no bolso latejasse e / pudesse, a qualquer instante, / explodir”. Daí em diante, “negar à História / seu autoflagelamento”, provocar a crise, alargar a borda, explodir o gesto: nem todo poema termina aqui.
* Escritor, professor de literatura. Autor de 55 começos (Editora da Casa)
17:55 - 23/01/2009
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