Iesa Rodrigues, Jornal do Brasil
RIO - Provavelmente fará sol na cidade neste domingo. Porque começa o Fashion Rio, edição de inverno 2009 e nunca chove durante o evento. Esta é uma das características da semana da moda carioca, organizada por Eloysa Simão desde 1992. Se superar o mau tempo que insiste em não deixar a cidade, ainda há a expectativa dos resultados neste ano que se anuncia de crise.
- O evento vai servir para mostrar como está o mercado- comenta uma cautelosa Eloysa Simão.
Fora da moda, ouvimos falar que uma fábrica de automóveis deu férias coletivas porque está vendendo menos. Que outra fechou as portas. E o que o mundo fashion tem a ver com isso? Pouco. Primeiro, porque não pode ser comparado à indústria que estava super-aquecida, cobrando juros baixíssimos, vendendo horrores.
O segmento do corte e costura é formado principalmente por pequenas e médias indústrias e nunca teve uma situação de alta deste jeito. Em compensação, como diz a Graça Ottoni, estilista de Belo Horizonte, “o dia em que as mulheres pararem de comprar roupa o mundo acaba”. Por isso, apesar da cautela, Eloysa espera um faturamento mínimo de R$ 250 milhões. Daí para cima, porque o Minas Trend Preview, que ela também dirigiu em novembro, no início da crise, cresceu 50% nas vendas.
Milhões em jogo
Então, ótimo, a crise passa ao largo. E os patrocínios?
A Oi saiu do jogo, vai investir em São Paulo, onde pretende estabelecer seus serviços; a Fundação Petrobras, que lida com a qualificação de mão-de-obra, acabou não consolidando a anunciada parceria nesta edição. Os R$ 8 milhões necessários para erguer tendas, montar estruturas de luz e som e toda a produção na Marina da Glória e arredores, saem dos bolsos de C&A, Marisol, SESI, FedEx e IG. Com esta base, estão garantidas as três tendas de desfiles, do Fashion Business e da área de imprensa, restaurantes e patrocinadores.
Mais uma novidade, a megatenda de 7.500 metros quadrados, virada para a baía de Guanabara, com direito à vista para o Pão de Açúcar, bondinho, Niterói, onde será revivida a antiga e animada área de convivência dos tempos em que o Fashion Rio se realizava no MAM. Quer dizer: está garantido o agito de quem não tem convite para as salas de desfiles – áreas estreladas também por convidados.
Vestibular de passarela
Se você pensa que as grifes e estilistas fazem grandes investimentos para participar de semanas de moda, saiba que não, eles não só não pagam, como ainda podem receber cartas de crédito, a exemplo do que acontece na São Paulo Fashion Week. Isto é, o fato de não envolver pagamento deixa mais difícil a participação na festa.
Para entrar na disputada agenda, a marca deve enviar um projeto de coleção para a Dupla (nome da empresa de Eloysa Simão), melhor ainda se acrescentar um look. O júri formado por editores e produtores de moda seleciona de duas a quatro melhores marcas. Como integrante deste seleto grupo, o método funciona, apesar de bastante primário. A votação é feita separadamente, sem a possibilidade de tirar dúvidas com um colega de júri. As roupas e croquis estão lá, na luz fria de uma sala de escritório, com eventual retirada dos cabides pela Lili Clark, uma das responsáveis pela área de pesquisa de estilistas da Dupla.
Quem consegue agradar neste vestibular de passarela está feito. Tem direito a mostrar suas idéias, ganha de brinde a iluminação e som da sala, mais um elenco básico de modelos. Pelo menos uma top internacional também pode estar incluída, porque uma pesquisa entre as marcas costuma indicar quem os participantes gostariam de ter no evento. Desta vez já estão garantidas as estrelas Isabelli Fontana, Aline Weber, Izabel Goulart, Daiane Conterato, Ana Claudia Michels e Bruna Tenório.
O novo pela rede
Outro júri, no mesmo formato, elege os 12 integrantes do Rio Moda Hype. Quase um evento dentro do evento, representa uma arejada no panorama eminentemente comercial e conceitual da agenda. A organização, por conta de Robert Guimarães e Fernando Molinari, tem acertado nas escolhas, juntamente com o júri sofredor, cada vez mais cheio de dúvidas na hora de selecionar o grupo cheio de originalidades que se inscreve pela internet.
Do pessoal que já passou pelas 10 edições do RMH, muitos se deram bem e seguiram carreiras de moda como designers de outras marcas ou desenvolvendo grifes próprias, como Kylza Ribas, Felipe Eiras e Marciana Souza. Nesta temporada, Guimarães e Molinari receberam mais inscrições de outros estados (do Piauí ao Paraná), que do Rio.
- Foi meio surpreendente porque temos tantas escolas de moda por aqui. Onde estão os alunos, ninguém quer entrar no circuito?- comentaram os organizadores, durante as avaliações.
Gente de fora
Júri convocado, marcas eleitas, modelos escaladas. Não há Lenny, nem Salinas na agenda, porque as grifes de moda praia pulam as edições de inverno. Sobra horário para quem sabe que a moda não tem mais estação. Aí, chega gente de fora do eixo Rio-São Paulo. A Printing traz seus bordados modernos e estampas de floresta, de Belo Horizonte; a Francisca vem do Recife já com currículo de sucesso na Daslu. De Brasília, mais uma vez, desfila a Apoena, que a cada temporada deixa para trás o artesanato que vive de solidariedade e cumpre o caminho de moda com qualidade artesanal.
Marcas internacionais, como a australiana Billabong, sempre sondam a semana, mas ainda não se dispõem a enfrentar a concorrência das nacionais, que sabem unir o jeito casual às exigências de rigores conceituais.
Estilo alegórico
O que é isso, rigor conceitual? Para leigos, significa a roupa esquisita, fora do que se imagina usar no dia-a-dia. Este estilo alegórico tanto representa com exagero o que será visto nas vitrines e nas ruas, como antecipa novidades em até dois anos, como uma espécie de laboratório de idéias. A modelo quase desaparece debaixo de muita maquilagem, várias camadas de tecidos, cabelões desarvorados. Se a imprensa gostar, dali a dois anos, devidamente explicado e usado por algumas celebridades, aquela maluquice será simplesmente roupa.
Platéia mimada
Como se sê em filmes sobre moda e desfiles, a imprensa tem tanta força quanto falam? Tem. Em todas as semanas de moda do mundo, os jornalistas especializados formam a parte do público mais temido. Desta vez são mais de mil credenciados. Muitos em busca de um lugar nas primeiras filas – o que causa o pesadelo de quem planeja a ocupação de lugares. Quem define a dança das cadeiras? Uma assessoria (Approach) especialmente contratada. Os fotógrafos e cinegrafistas, claro, não sentam. Mas disputam centímetros na boca do tablado.
- As grifes têm liberdade de escolher quem fica na fila A. Mas, volta e meia, explicamos docemente a alguém que ele não está na frente da passarela- conta Beth Garcia, diretora da Approach.
Esta platéia mimada disputa também computadores na sala de imprensa com vista para o mar. Igual em beleza, só a do Rio Summer, montada no alto do Forte de Copacabana.
Lado B é lado A
Fora do catwalk mais badalado, há as apresentações alternativas ou paralelas, como os desfiles que se realizam dentro da tenda do Fashion Business. Este lado B do Fashion Rio, uma idéia que surgiu da necessidade de concretizar vendas, é o grande destaque da semana de moda. É celeiro de boas histórias, trazidas pelos pólos produtivos de várias partes do país pelo Sebrae. Muitas vezes, há mais originalidade nos estandes despretensiosos do que nas passarelas suntuosas.
É a sandália de corda do Piauí, o jeans do Mato Grosso, os biquínis de Cabo Frio, as bolsas de Recife. Marcas também se empenham em espaços que parecem butiques, como Glorinha Paranaguá, Equatore, e agora também Lenny, Alessa, Tótem, Carlos Tufvesson. E mais franceses, graças ao acordo de parceria com o Salão do Prêt-à-porter de Paris. Sim, tantos foram os comentários elogiosos, que o Fashion Business foi parar também na Capital da Moda e, por aqui, ganhou sua porção show, com desfiles que cumprem o papel de mostrar didaticamente as coleções. Claudia Simões e a Espaço Fashion agradaram tanto nestas apresentações menores que foram convocadas para a agenda principal.
Saem estas duas, entram três. A Fedex, empresa transportadora com papel relevante nas exportações da moda, traz o indiano Rajesh Pratap Singh e Ashley Isham, de Cingapura, para desfilarem junto com Fabíola Molina, nadadora brasileira que faz o maior sucesso no mundo com seus sunkinis.
- Há uns cinco anos, ela começou a fazer modelos para uso próprio, em busca de um modelo que pudesse vestir tanto para treinar quanto para o lazer. Quando viajava, as atletas me encomendavam porque gostavam das estampas, do corte mais discreto”. Agora, a grife vai lançar até tecido novo. O Acquo estampado, que resiste mais que a Lycra ao cloro, e é mais bonito que a Helanca, que só existe lisa- antecipa Fabíola, mais famosa como pessoa de moda na França, Nova Zelândia, Alemanha e Estados Unidos do que por aqui.
O que vem por aí
Além dos sunkines de Fabíola Molina, do Fashion Rio sairão as propostas que escolheremos para vestir a partir de março. Estilos exóticos na rota do chá, da Mara Mac; o vazio em pretos e cinzas, na Espaço Fashion; um conto de Machado de Assis, na Lilica Ripilica; o inverno no Hyde Park, para a Cavendish; a fantástica fábrica de chocolate, para os adeptos da moda masculina de Ivan Aguilar, ou a irreverente proposta homenageando diversos tipos de Jorges, de Beto Neves para a Complexo B, que encerra o Fashion Rio. Cada estampa, cada babado e cada grampo visto nas passarelas significam muito trabalho no avesso da moda. Ou nos bastidores. Oooops, no backstage.
Vocabulário fashion
Os fotógrafos ficam no pit (termo usado só no Brasil, nunca ouvido em Paris ou Milão).
O camarim é o backstage.
A agenda é o line-up.
O planejamento de lugares é o sitting.
O convite é card.
Na passarela, o catwalk, desfilam as tops, com makes maravilhosos assinados pelos beauty artists e vestidas pelos stylists.
As calças são flares e os casacos, overs.
17:50 - 10/01/2009