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Rio Acima: A Cidade da Música e a viagem do vovô

Marcelo Migliaccio, JB Online

RIO - Quando eu era pequeno, tinha um amiguinho a quem a família quis poupar da triste notícia da morte do avô. Com a melhor das intenções, os pais dele disseram que o vovô havia viajado. Funcionou. Apesar do clima meio diferente em casa, o sorriso não se apagou do rosto do garoto. O problema é que ele hoje, já quarentão, ainda pensa que o avô está viajando. Outro dia, num jantar de família, perguntou à mãe, meio desinteressadamente, entre uma garfada e outra:

– E o vovô, quando volta de viagem?

Atribui-se ao alemão Paul Goebbels, marqueteiro de Adolph Hitler, a frase “uma mentira repetida 100 vezes vira verdade”. E foi o que aconteceu aqui no Rio em relação à polêmica obra da Cidade da Música. Um jornalista – e é preciso deixar claro que não foi nenhum dos meus colegas aqui do JB – sonhou que alguém lhe dissera que a previsão inicial de custo da obra era de R$ 80 milhões. Quando acordou, correu à redação e disse a seu chefe que tinha um furo. Publicaram o devaneio, que passou a ser repetido por quase toda a imprensa como se fosse verdade.

O alvoroço foi tamanho que até uma Comissão Parlamentar de Inquérito iniciou-se na Câmara Municipal para investigar o escândalo de uma obra que teria sido orçada em R$ 80 milhões e, seis anos depois, ainda inacabada, já estava custando seis vezes mais.

Durante a CPI, concluída no ano passado, os secretários municipais de Obras e das Culturas se esgoelaram dizendo que a previsão inicial de custo sempre fora de R$ 500 milhões, nunca havia sido de R$ 80 milhões. Pressionado pela imprensa, o então prefeito Cesar Maia apelava à língua universal na esperança de ser levado a sério e convertia para o dólar: “A obra sempre esteve orçada em US$ 250 milhões”. Não adiantou. Apesar de não haver qualquer documento oficial ou declaração gravada, a previsão inicial de custo da Cidade da Música era de R$ 80 milhões e pronto. Estava na TV, no rádio, na internet. Quem duvidaria?

Eis que entrou em cena, no plenário da CPI, o ministro do Tribunal de Contas do município Marco Antônio Scovino. Convidado a depor, ele revelou valores das primeiras licitações da obra, essas sim, devidamente documentadas. Disse, só como exemplo, que uma delas era de R$ 107 milhões. Pois não é que um dos vereadores entendeu que aquela era a previsão inicial de custos da Cidade da Música? R$ 107 milhões. E passou a alardear essa quantia, referente na verdade a apenas uma etapa da obra.

A Suderj informa: substituição no escândalo de superfaturamento. Saem R$ 80 milhões e entram R$ 107 milhões. No Rio, a gente sabe, confusão pouca é bobagem.

Procurados pela imprensa, arquitetos renomados de todo o país mostravam seu espanto.

– Por R$ 107 milhões, você constrói, no máximo, um bom prédio comercial, não um complexo de salas musicais de nível internacional. Quem fez essa previsão inicial errou feio – espantou-se um dos mais elogiados discípulos de Oscar Niemeyer.

E a repercussão da mentira repetida 100 vezes continuava:

– No máximo, a diferença entre a previsão inicial e o custo final da obra deve chegar a 15%. Esse aumento de seis vezes é um absurdo – condenou um membro do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura.

Na realidade, a Cidade da Música, se comparada a similares como a Ópera de Oslo (cujo metro quadrado custou o equivalente a R$ 33 mil), a Cidade da Música de Paris (R$ 35 mil) e a Casa da Música do Porto (R$ 15 mil), está saindo até barata, pois seu metro quadrado construído custou, até agora, R$ 5.800. Tomara que a economia não tenha sido na qualidade.

Em todo caso, uma mentira perseguirá Cesar Maia pelo resto da vida. Daqui a 20 anos, quando ele estiver talvez num baile da terceira idade no Olímpico Clube, alguém vai sussurrar em seu ouvido:

– E o vovô, quando volta de viagem?

17:39 - 10/01/2009










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