Ana Paula Verly, JB Online
RIO - Choque de Ordem da prefeitura devassou nesta quarta cinco bairros
da Zona Sul. Os alvos principais foram os moradores de rua, camelôs e
infrações de trânsito no Flamengo, Catete, Botafogo, Largo do Machado
e Glória.
Em vez de se ater à repressão do varejo, a ação agora reprime também o atacado, nas palavras do secretário municipal de Ordem Pública, Rodrigo Bethlem, que comanda a ação em todo a cidade.
Pela manhã, os fiscais estouraram um depósito clandestino usado por camelôs, no Flamengo. Do local foram retiradas 40 toneladas de mercadorias, barracas e alimentos perecíveis em condições inadequadas
de armazenamento.
– Além de não ter alvará, o espaço guardava produtos sem acondicionamento adequado, o que é crime contra a saúde pública. Estamos zelando pela saúde da população. Vamos continuar agindo com tolerância zero – avisou Bethlem, lembrando que, a partir da semana que vem, o gabinete da secretaria terá um site e um telefone para denúncias.
Guardas municipais e fiscais da Secretaria Especial de Ordem Pública
encheram cinco caminhões com as mercadorias apreendidas. O depósito
funcionava no número 65 da Rua 2 de dezembro, perto do Largo do Machado, no Flamengo. Mulher do inquilino do local, a dona de casa Flávia Cristina de Moura, de 30 anos, estava revoltada, como os ambulantes que utilizavam o depósito.
– Todos aqui dependem disso para viver. Ele (o prefeito Eduardo Paes)
não pode agir assim. Tem de arrumar um lugar para trabalharmos de forma legalizada. Ninguém aqui roubou. Eles têm nota fiscal e são trabalhadores – reclamou Cristina, com o filho pequeno no colo.
Cristina contou que o marido pagava cerca de R$ 1 mil pelo aluguel do espaço. De cada ambulante, cobrava em torno de R$ 120, dependendo da mercadoria e da quantidade. Guardar uma bolsa, por exemplo, poderia custar R$ 7 ou mais, conforme o tamanho. Atenta ao noticiário sobre o
Choque de Ordem, a ambulante Maria das Graças da Cunha retirou a mercadoria na véspera . Não perdeu nada, mas estava igualmente revoltada.
– Nunca vi isso. O prefeito (Eduardo Paes) agiu com muita frieza. Ele dependeu da gente para chegar lá (na prefeitura). Quando precisou de voto, veio aqui nos pedir. Ele só entrou porque teve bobos que nem a gente que votaram nele – desabafou Maria, abraçada ao filho Mateus, de 10 anos, aos prantos.
O Grupamento Tático Móvel da Guarda isolou a área para garantir a segurança dos fiscais. O ambulante Carlos de Souza comparou a ação a
um "massacre". Na opinião dele, o lugar deveria ter sido lacrado para
os camelôs, com nota fiscal, retirarem as mercadorias. Sem os relógios que eram o seu ganha-pão, Carlos ficou desolado.
– Se a gente não tem disposição para trabalhar, vira bandido. Como vamos fazer agora? – questionou.
O subsecretário de Operações da secretaria de Ordem Pública disse que
tudo foi feito "dentro da legalidade". O material foi levado para os depósitos públicos e pode ser retirados com a apresentação das notas
fiscais – com exceção dos alimentos, que foram descartados. Em meio a um forte mau cheiro, ratos e baratas, os fiscais encontraram vasilhas com farofa, salsicha e maionese estragadas, entre outros alimentos e
condimentos.
– Obedecemos a lei. Todos os produtos com comprovação lícita serão devolvidos a quem tem licença para trabalhar – prometeu Carlos.
19:11 - 07/01/2009