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Cultura

O triunfo selvagem de Roberto Bolaño

Sarah Kerr, The New York Review of Books, JB Online

NOVA YORK - Mais do que um nômade, Roberto Bolaño foi um revolucionário da literatura. Para levar a ficção rumo ao desconhecido, teve que ir até lá, e depois inventou um método para representá-lo. Como o desconhecido era a realidade, os resultados do trabalho são multidimensionais, o que dificulta o poder de descrição de um crítico. Ao se destacar a jogada conceitual de Bolaño corre-se o risco de se perder o visceral em seu trabalho. Enfatizar sua ambição pode invocar ameaças de obscuridade exclusivamente modernista, ou a literatura como um jogo estéril, quando a verdade é que é difícil imaginar um escritor menos esnobe, ou – no duplo sentido de nos expor a coisas desagradáveis e carregar sementes para o futuro – menos estéril.

Leia matéria sobre 'Amuleto'

Ladrão de livros

Bolaño morreu de falência do fígado em 2003, na Espanha, onde morava havia muito tempo. Nasceu no Chile em 1953. O pai foi campeão amador de boxe e a mãe professora que estimulou no filho disléxico o amor pela poesia. Em 1968, a família se mudou para a Cidade do México, onde Bolaño começou a ter uma educação autodidata e cosmopolita por meio de um método felizmente aleatório de roubar livros (na fase adulta seu gosto foi amplo o suficiente para apreciar o alquimista suíço Paracelsus, o parodista britânico Max Beerbohm e o autor de sci-fi Philip K. Dick.).

Em 1973, desempenhando seu pequeno papel na febre política da época, voltou ao Chile para apoiar a causa socialista de Salvador Allende. O que aconteceu em seguida parece continuar vivo em seus padrões ficcionais de interrupções bruscas. Depois do golpe de Augusto Pinochet, naquele ano, Bolaño foi detido e poderia ter se juntado aos milhares que foram presos, mortos ou enviados para o exílio. Em vez disso, foi reconhecido por velhos colegas de colégio que trabalhavam para o novo regime e acabou liberado.

Voltou para o México e ajudou a fundar o infrarrealismo, uma escola de poesia contra o status quo, de influências surrealistas. Depois foi para a Europa, onde teve uma série de empregos, todos mal pagos, mas que permitiam sua independência intelectual. Era viciado em heroína. Mas deixou o vício, se estabeleceu na cidade de Blanes, teve um filho e, na década de 90, sentiu necessidade de criar. Começou a participar de concursos literários de província e ganhou alguns modestos prêmios em dinheiro. Cada vez mais consciente da fragilidade de sua saúde, começou a encher as prateleiras das livrarias com obras compactas e poderosas, que pareciam ter levado décadas para serem escritas: entre elas, La literatura nazi en América (1996), um catálogo perturbador e divertido de escritores imaginários; Estrella distante (1996), novela curta sobre um piloto do regime de Pinochet que rabisca poemas perturbadores no céu e que nas horas vagas é um assassino de mulheres; e Noturno do Chile (2000), confissão no leito de morte de um padre e crítico literário chileno corrupto, compreendendo um pouco o horror de sua própria carreira. Em 1999 viria Amuleto, que está sendo lançado agora no Brasil pela Companhia das Letras (juntando-se, entre outros, a Putas assassinas, de 2001 e A pista de gelo, de 1993), novela sobre uma mulher que, escondida em um banheiro, ouve lá fora a invasão de uma universidade, na Cidade do México, em 1968 (leia mais sobre o livro na página ao lado).

Bolaño tinha profundo ceticismo em relação ao sentimento de nacionalidade, e dizem que seu trabalho começa a indicar um caminho para uma espécie de ficção pós-nacional. Mas alguns de seus insights ainda parecem ter raízes numa experiência particular, não transcendental. Em sua juventude, bem antes da chegada de Pinochet, o Chile era um país de profunda desigualdade e grande conservadorismo, com o poder nas mãos da Igreja e das elites, que aspiravam a um sonho distante de refinamento. Até certo ponto, começou a ser criado ali o suposto ódio de Bolaño pela pretensão, naquele tempo em relação à própria idéia de cultura, de que esta figurava como uma máscara para uma fantasia de poder. Ainda assim era uma terra de poetas. Uma passagem de Los perros románticos: 1980-1998 , coletânea de poemas de Bolaño, faz homenagem a Nicanor Parra, que nadou contra a maré com sua poesia de estilo direto e despojado de elegantismos.

Caos criativo

E havia o México, que Bolaño nunca mais viu depois de deixar o país, em 1977. Lá, encontrou um caos mais generoso, vivo e criativo, apesar de não estar livre da corrupção e da violência. Nos anos 1970, a capital do país é a cena lindamente descrita de Os detetives selvagens (1998), primeiro livro de Bolaño a ser maior que uma novela e seu trabalho mais aclamado. O narrador do trecho inicial, um jovem animado, suposto poeta, descreve seu envolvimento arrepiante com um grupo de revolucionários literários. São liderados por um melancólico mexicano, Ulises Lima, e um chileno inquieto de nome Arturo Belano – alter egos de Bolaño e de seu melhor amigo, o poeta Mario Santiago Papasquiaro. De forma abrupta, a história é interrompida, mudando para um desfile de testemunhos de pessoas que encontraram Belano e Lima nas décadas subsequentes. O panorama traçado por essas memórias é pesado e triste, cheio de promessas não realizadas, mesmo que o método do romance faça parecer que aquilo tudo é cheio de vida. A parte final nos põe de volta nos anos 70. O narrador esperançoso e uma jovem prostituta se juntam a Belano e Lima, e vão para a região desértica de Sonora. Galantemente tentam proteger a garota de um cafetão e buscam uma figura há muito esquecida da poesia de vanguarda mexicana.

Bolaño apresentou uma edição espanhola de As aventuras de Huckleberry Finn e chegou a sugerir que Os detetives selvagens foi sua investida no conto de aventura ao estilo de Twain. E deu pistas de outro modelo: Melville abordando a maldade em Moby Dick.

Em 2002, o repórter mexicano Sergio González Rodríguez publicou uma reportagem sobre centenas de assassinatos não solucionados de garotas na Cidade Juárez, ao sul da fronteira do Texas. Os assassinatos começaram a ocorrer no início dos anos 1990, com o comércio de drogas e proliferação de novas indústrias para exportação. O romance em que Bolanõ estava trabalhando lidava com assassinatos. Segundo ele, a reportagem de González Rodríguez era uma “metáfora do México, do seu passado e do futuro incerto da América Latina”. Pertencia não à tradição de aventura, mas ao pólo oposto da história das Américas, o apocalíptico: “Essas são as únicas duas tradições que continuam vivas no nosso continente, talvez porque são as únicas a chegarem perto do abismo que nos cerca”.

2666 foi publicado na Espanha em 2004, um ano depois da morte de Bolaño (o plano da Companhia das Letras é publicá-lo em 2010). É um romance inacabado – e não dá para sentir falta de revisões finais. Há maus presságios que lembram David Lynch, cujo método de penetrar no inconsciente parece uma inspiração. Bolaño gostava de histórias de detetives, e uma vez disse que gostaria de ter sido um detetive de homicídios. Apesar de todas as pistas, logo descobrimos que não somos bons em adivinhar o que vem depois. Seguimos Bolaño em suas digressões, e, com a leve intuição de um sonho, sentimos que ele está brincando com as ferramentas do gênero: na metade do caminho, uma cena pode assumir levemente ares de suspense, erotismo ou fábula. Frequentemente, um personagem pode começar a discutir metáforas que revelam ou escondem. Há cenas que parecem estar lá só para apresentar um incidente que Bolaño tenha testemunhado. Como há muitas referências à pintura, e como o enredo às vezes transcorre de forma invisível, o visual começa a ter grande importância.

Mosqueteiros

O romance é dividido em cinco partes. Quando avançamos para o final, a abertura parece uma pequena memória. A primeira parte, passada no meio dos anos 90, nos traz um quarteto de jovens europeus acadêmicos. Eles se unem como mosqueteiros pela linha compartilhada de argumentos sobre a obra de um escritor chamado Benno von Archimboldi, um alemão que todos acham que ainda está vivo – pode ser até mesmo um candidato ao Prêmio Nobel – mas que por décadas não foi visto por ninguém a não ser seu editor.

16:49 - 02/01/2009




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