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Índice - Economia

Entrevista | Alice H. Amsden "O Grupo dos Oito está perdido"

Economista eleita por revista como um dos 50 maiores visionários do mundo diz que emergentes devem contornar regras para crescer

Gabriel Costa

A economista Alice Amsden não tem medo de desafiar paradigmas. Em seu livro A ascensão do "resto", recém-publicado no Brasil pela Editora Unesp, a professora do Massachusetts Institute of Technology (MIT) faz uma análise impetuosa dos desafios que enfrentam os países em desenvolvimento, nações com históricos de industrialização tardia que agora começam a concretizar seu potencial como incipientes potências econômicas.

Embora a obra tenha sido escrita em 2001, os argumentos de Amsden, considerada pela revista Scientific American um dos 50 maiores visionários do mundo, não parecem datados. A especialista divide os emergentes em dois grupos. De um lado estão os "integracionistas" – países como Brasil, México, e Argentina, historicamente dependentes de investimento direto estrangeiro e com com pouca estrutura de pesquisa e desenvolvimento. A esses se opõem os "independentes", liderados por China, Índia, Coreia e Taiwan, países caracterizados por empresas de controle nacional e alto investimento em capacidade tecnológica.

Para que as economias emergentes possam superar suas dificuldades e compensar o atraso de seu desenvolvimento, segundo a economista, os países devem recorrer à atuação do setor público e encontrar formas de contornar normas internacionais que, ressalta, os países ricos não respeitaram durante seus próprios períodos de ascensão.

Em entrevista ao Jornal do Brasil, Amseden, que já recebeu de prêmios da Associação Americana de Ciência Política e do Global Development and Environment Institute, detalha a visão heterodoxa do desenvolvimento defendida em seu livro e sustenta um diagnóstico contundente do cenário atual de crise. Leia a seguir.

Em seu livro A ascensão do "resto", a senhora defende a intervenção do Estado para que os países considerados atrasados em desenvolvimento superem regras internacionais parciais e os interesses de mercados desenvolvidos. De acordo com a obra, o setor público seria responsável por políticas que atendessem à demanda de conhecimento e tecnologia nessas economias. Qual exatamente seria o papel do governo nesse contexto? Isso mudou desde o início da crise financeira internacional?

Depois da Segunda Guerra Mundial, os países em desenvolvimento eram simplesmente alunos e pegavam tecnologia "emprestada". Apesar disso, um número significativo desses países conseguiu acelerar seu desenvolvimento por meio de políticas intervencionistas comerciais e industriais. Os países mais ricos do mundo não seguem as regras do Consenso de Washington que eles próprios pregam. Nesses países, nós vemos a promoção de ciência e tecnologia, aceitável pela Organização Mundial do Comércio (OMC), que não proíbe a promoção da indústria. A crise financeira é uma grande oportunidade para o Brasil. Muitas companhias estrangeiras estão com problemas, no exterior e no próprio país. O governo brasileiro pode ajudar a indústria a adquirir ativos que vão expandir as capacidades tecnológicas do país, e reverter a saída de "cérebros". A Sabic, por exemplo, uma companhia estatal da Arábia Saudita, acaba de comprar a GE Chemicals, com um laboratório de pesquisa e desenvolvimento na China. Companhias privadas brasileiras podem ter ajuda para conseguir "vencedores". Aquisições ajudarão a redistribuir a riqueza global. Países em desenvolvimento com suficiente jogo de cintura podem contornar regras da OMC, explorando brechas criadas pelos países ricos, que preferem não "adjudicar" certas questões. Subsídios são estritamente proibidos em teoria, mas na prática ainda é possível que governos subsidiem negócios por meio de ciência e tecnologia, como o Departamento de Defesa e o Instituto Nacional de Saúde fazem nos EUA; erradicando desigualdades regionais, como países europeus ricos no Norte e pobre no Sul fazem; e investindo no meio ambiente, o que requer subsídios generalizados em todos os lugares. O que os países em desenvolvimento não podem fazer, e que costumava ser muito importante, é subsidiar exportações. Eles deveriam encontrar uma forma de fazer isso. Mas eles estão contornando isso também. A parte assustadora da OMC é relativa à agricultura. Como foi dito nas reuniões de Doha, a ameaça do livre comércio de produtos agrícolas reside exclusivamente nos países desenvolvidos. Ao menos países como o Brasil, com grandes indústrias agrícolas, agora têm voz nas eternas deliberações da OMC. O problema são os países mais pobres que já tiveram cotas para suas exportações agrícolas para os mercados do Norte. Se o Norte realmente abrir seus mercados agrícolas, essas cotas vão embora. Esse é o problema com regras que assumem que um sistema serve para todos.

Na sua opinião, o pior da crise financeira e econômica já passou?

Não, a crise continua. O resgate aos bancos nos Estados Unidos apenas tocou questões de curto prazo. Agora, muitas companhias têm débitos de longo prazo cuja data de vencimento já passou, e é duvidoso que possam pagar. O desemprego está em níveis estratosféricos nos Estados Unidos se contarmos também as pessoas que estão trabalhando menos.

Como o papel dos países "integracionistas" e "independentes" mudou com a crise?

O Leste Asiático tem menos investimento estrangeiro direto do que a América Latina porque após a Segunda Guerra Mundial, com a derrota do Japão, Coreia, Taiwan e China tiveram a oportunidade de expulsar os governantes e companhias coloniais estrangeiros. O mesmo vale para a Índia. O Brasil nunca teve essa chance. Depois da Segunda Guerra, as mesmas multinacionais simplesmente permaneceram. Na minha opinião, se compararmos as melhores companhias nacionais do Leste Asiático, privadas e estatais, e as melhores subsidiárias estrangeiras, as companhias nacionais são mais empreendedoras. Elas assumem mais riscos. Elas diversificam. Elas fazem investimentos para fora do país. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) pode ajudar a incrementar as aquisições de companhias estrangeiras do Brasil para tornar-se mais empreendedor.

Como a senhora vê os Brics – Brasil, Rússia, Índia e China – na atual conjuntura econômica global? Faz sentido classificar essas economias como parte de um mesmo grupo ou há muita heterogeneidade entre elas?

Todos eles têm uma coisa em comum: grandes setores químicos e mineradores. Esses países precisam começar a trabalhar juntos no nível da indústria. Foi assim que a União Europeia começou, com a cooperação na indústria do aço.

Quanto tempo será necessário para que o mundo retorne a padrões de desenvolvimento capazes de atender às expectativas sociais nos países desenvolvidos e emergentes?

Dez meses para o Brasil, 10 anos para Moçambique. Embora o Banco Mundial não faça alarde, as informações da instituição sobre o alívio da pobreza são bastante surpreendentes. Os dados mostram que de 1981 até 2005 não houve absolutamente nenhum avanço na redução da pobreza da África, por exemplo. O africano médio não tem mais nutrição hoje do que há 25 anos. O mesmo progresso estagnado é evidente na América Latina e no Oriente Médio, mas o nível absoluto de pobreza nesses lugares é menor que na África. Houve muito barulho relativo ao continente africano, mas pouco foi conquistado. Ao longo dos últimos 50 anos, ficou claro no mundo em desenvolvimento que curar a pobreza por meio da criação de empregos leva tempo, mas que tentar aumentar os padrões de vida somente pela eliminação da pobreza e pelo encorajamento de reformas sociais leva uma eternidade. Além de tudo, a estrada lenta está ficando mais congestionada. O alívio da pobreza em países pobres começou a tirar recursos do investimento, que é a incubadora do trabalho. Reformas sociais colocaram em cheque o mercado de ideias, sufocando o conhecimento convencional. Teóricos sociais imaginam que algo tão admirável quanto, digamos, a "liberdade cultural" pode resultar em refeições por meio da libertação da energia interior de um indivíduo, que deveria ser a definição de desenvolvimento. Ainda assim, os jovens desempregados do mundo em desenvolvimento, das Filipinas a Porto-do-Príncipe, parecem duvidosos. Empreendedorismo, tecnologia e industrialização, que tiraram mais de 1 bilhão da pobreza, não são mais usado em benefício dessas pessoas. As Metas de Desenvolvimento do Milênio da Organização das Nações Unidas (ONU) são erradicar a pobreza extrema, alcançar a educação primária universal, promover a igualdade de sexos, reduzir a mortalidade infantil, combater doenças como a Aids, assegurar a sustentabilidade ambiental e criar uma parceria global para o desenvolvimento. Esses objetivos são louváveis, mas no documento original da ONU não havia menção ao emprego, o que é chocante. Se o objetivo da educação primária universal for alcançado, de onde virão os empregos para os que se formarem? No mundo em desenvolvimento de hoje, talvez haja mais formandos desempregados do que estudantes nas escolas.

O G-8 está em uma posição favorável para chegar às respostas à crise?

Todos os países-membros do G-8 expressaram a crença no liberalismo e nos livres mercados, mas agora eles não conseguem juntar tudo de forma concreta. É difícil passar dos princípios de laissez-faire aos princípios de estímulo econômico. Eles estão perdidos. O Brasil tem sorte de seu status emergente não ter sido desmantelado. O país ainda tem o BNDES e outras organizações necessárias para ação econômica séria.

É possível listar os países que sairão como os maiores prejudicados e aqueles que sairão mais fortes da crise? Quais são eles?

Os Brics sairão fortes, o Japão continuará o mesmo e os Estados Unidos sairão feridos. A indústria mais dinâmica dos EUA é a financeira, e ela está com problemas.

Domingo, 12 de Julho de 2009 - 00:00









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