Juliana Krapp e Ricardo Schott
PARATY, RJ
"Gosta de poesia?". Esta frase, tão comum aos ouvidos de quem circula por centros urbanos, e repetida infinitas vezes por poetas iniciantes em outras edições da Flip, esteve escassa este ano. Os autores-livreiros, com seus livrinhos mimeografados e desenhados à mão, praticamente sumiram das ruas do balneário. O motivo: fiscais do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) inibiram a exibição dos artistas de rua nos cinco dias de festival, encerrado anteontem. Tanto que, na última quinta-feira, um deles apreendeu os livros que estavam sendo vendidos na Praça da Matriz por Pedro Tostes, da Editora Poesia Maloqueirista.
– Eles levaram 16 exemplares do meu livro Descaminhar – conta Tostes, mostrando o auto da apreensão. – Justificaram que era proibido vendê-los ali. Mas eu estava simplesmente exercendo o meu direito de liberdade de expressão. O livro é meu, não copiei de ninguém. E a Flip é um festival literário, onde supõe-se que haja espaço para esse tipo de manifestação.
Outra escritora que foi inibida pelos fiscais é Patrícia Oliveira. Vestida de noiva, ela oferece aos transeuntes exemplares de seu livro 3 - Um romance para ler de uma vez só. Mas volta e meia é interpelada pelos fiscais.
– Da última vez, um deles veio me dizer que eu não poderia fazer minha performance diante da Igreja do Rosário – relata Patrícia. – Disse que a construção era um patrimônio histórico, e que eu ia atrapalhar as fotos das pessoas.
O veto do Iphan
O diretor geral da Flip, Mauro Munhoz, explica que a organização do evento não pôde interferir no problema:
– Existe um processo do Iphan contra a prefeitura de Paraty, impedindo que as pessoas vendam produtos no centro histórico. Por isso, não podem ser vendidos livros nas ruas.
Procurado pelo Jornal do Brasil, o prefeito de Paraty, Zezé Porto (PTB), que está em segundo mandato, confirma que o Ministério Público Federal e o Iphan têm o poder de impedir vendas no centro histórico. E que, para venderem livros, os poetas têm de estar licenciados – da mesma forma como acontece com os ambulantes. Se a prefeitura não fizer cumprir a lei determinada pela liminar, sofre multa diária de R$ 5 mil. Mas avisa que, no que diz respeito a vendas nas ruas, seja de qual produto for, a prefeitura pretende recorrer da decisão.
– Essa liminar nos traz um certo tipo de transtorno, porque entendemos a necessidade de a população trabalhar, de ganhar dinheiro com isso. Sabemos que quem está na economia informal não está porque quer. Mas temos que fazer cumprir a lei – diz o prefeito, que crê que o fato de as crianças da cidade já estarem discutindo sobre literatura desde cedo seja uma das melhores bênçãos trazidas pela Flip. – Fazemos com que haja interação máxima entre a cidade e o evento.
Terça-feira, 07 de Julho de 2009 - 00:00