Além da Sinfônica de Campinas, Ligia Amadio assume a Osusp
Monique Cardoso
A maestrina Ligia Amadio deixou a Orquestra Sinfônica Nacional no comecinho do ano para assumir o posto de diretora artística e regente titular da Sinfônica Municipal de Campinas (OSMC). Mas até hoje, seu celular mantém o código de área do Rio. Somente no último fim de semana ela conseguiu finalizar a venda de seu apartamento em Niterói e se mudar de vez para a casa que comprou na cidade paulistana – estava vivendo em hotéis. A vida, contudo, vai continuar corrida, mesmo longe da ponte aérea. Além de Campinas, Ligia acaba de assumir um segundo grupo em São Paulo, a Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo (Osusp). A regente negociava, há três meses, sua contratação, mas somente na semana passada a novidade foi divulgada, quando ela assinou os documentos do acordo. O convite foi imprevisível, assim como o de Campinas
– Ambos foram completamente inesperados. Na Osusp, foi absolutamente surpreendente, pois nunca sequer regi a orquestra e os músicos me escolheram. Quando você rege muito como convidado, cria uma relação e pode acontecer de ser chamado a assumir o grupo. Não era meu caso – conta.
A estreia de Ligia à frente da Osusp só deve acontecer no ano que vem – pódio ainda em 2009 só se for marcado um concerto extra. A temporada do grupo, que vem atuando com maestros convidados desde o ano passado, quando o titular Carlos Moreno deixou o cargo, estava pronta. A coincidência é que Moreno, violinista originalmente, ensaiou os primeiros compassos como maestro com a benção de Ligia: ele era músico da OSN e lá teve diversas oportunidades de reger. A Osusp tem temporadas na Sala São Paulo e em sua casa, o Auditório Camargo Guarnieri, no campus da USP.
– Este ano, vou cuidar para que todos os concertos se cumpram. Assisti a um concerto na Sala São Paulo, estava lotado. Eles têm um público fiel, muito caloroso – entusiasma-se.
Com o aplauso dos colegas
A temporada da Sinfônica de Campinas também recebeu elogios da imprensa especializada em São Paulo. A presença de Ligia aumentou o prestígio do grupo já nas primeiras semanas. Foi a orquestra convidada a tocar na cerimônia de de entrega de troféus do Prêmio Carlos Gomes, uma prova de fogo. Ela passou pelo crivo de todo o exigente meio musical de São Paulo numa única noite.
– Ficamos muito felizes com o convite do prêmio, mas aquilo foi um teste, uma enorme responsabilidade, mas fizemos uma apresentação finíssima, deixou muita gente impressionada, por isso foi maravilhoso – comemora.
Hoje, a maestrina toca com a OSMC na 40ª edição do Festival de Campos de Jordão. Quando assumiu, em março, cerca de 40% da temporada estava organizada. Ela precisou se dedicar às outras datas ainda em aberto e, mesmo tendo pouco tempo para montar a programação, conseguiu convocar nomes de peso, como a soprano Niza de Castro Tank e os pianistas Linda Bustani e José Louis Steuerman. No fim do ano, ela faz a monumental Nona sinfonia, de Beethoven, e contará com nomes como Rosana Lamosa e Leonardo Neiva.
Nascida na capital paulista, a regente deixou sua cidade há quase 15 anos para se especializar, vencer concursos, trabalhar na Argentina e assumir a Sinfônica Nacional (OSN), em Niterói, onde ficou mais de uma década e com a qual gravou DVDs que registram repertório brasileiro. Agora, ela está, de fato, de volta para casa.
– Por mais que adore o Rio e tenha saudades, a terra da gente é sempre a terra da gente – pondera. – Aqui estou revendo amigos, vou poder estar perto de pessoas que amo, da minha família. Foi uma importante mudança na minha vida pessoal. Estou contente porque há muitos anos estava fora. Mas, às vezes, é assim, você precisa sair para retornar valorizado.
Apesar de as mudanças – a que a trouxe para o Rio anos atrás e as que agora a levam de volta a São Paulo – não terem sido planejadas por ela, Ligia não acha que os caminhos de sua carreira tenham sido traçados pelo acaso. Ao contrário, são reflexos de trabalho.
– Nunca mandei currículo. Em geral, mudanças de regente se dão por razões políticas, por indicações. Minha vida é dedicada aos estudos e ao trabalho, não tenho tempo para ficar fazendo contatos sociais. Só que na vida nada acontece por acaso. Voltei porque tenho trabalho a realizar aqui. Acho que realizei muito no Rio. Dediquei minha juventude à OSN, sim, criei raízes, mas não digo que dei meus melhores anos. Os melhores anos estão por vir.
Terça-feira, 07 de Julho de 2009 - 00:00