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Jornal do Brasil - O primeiro jornal brasileiro da internet



Índice - Caderno B

Por um lugar nas prateleiras

Juliana Krapp, Bolívar Torres e Marsílea Gombata

PARATY, RJ

Eles não têm sequer um autor na programação principal. Não contam com grandes catálogos e suas tiragens não costumam ultrapassar os mil exemplares. Ainda assim, pequenos editores aproveitam a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) pelas beiradas – e, cada vez mais, reivindicam participação maior no festival literário do país. Reunidos para uma conversa com o Jornal do Brasil, um grupo de representantes de jovens editoras debateu sobre o mercado, escolhas técnicas, e a dor e a delícia de ser um pequeno.

Relegados a um espaço tímido mesmo na programação paralela da festa (em pauta na Casa da Cultura e na Off Flip), essa turma quer romper as barreiras e os preconceitos que rondam sua produção – inclusive no evento anual de Paraty.

– A Flip é um bom espaço para a troca de ideias, para o intercâmbio entre as pessoas. Mas os pequenos editores não têm espaço de venda aqui - reclama Rodrigo Rosp, um dos líderes da Não Editora, de Porto Alegre, que veio à Flip pela primeira vez. – O ideal seria que pudéssemos nos juntar em um espaço alternativo para os menores.

Longe da Tenda dos Autores e das prateleiras do festival, uma forma de ser visto em Paraty é no contato direto com o leitor. Olho no olho, nas ruas em pé de moleque.

– A Flip também é o que acontece nas ruas. Muitas vezes, o leitor lucra mais no contato com o escritor que está vendendo seus livros na rua do que com aquele que está no palco, inacessível. Há mais diálogo, interação – acredita Pedro Tostes, um dos cabeças do coletivo Poesia Maloqueirista, selo editorial de São Paulo.

O lema desses editores independentes é justificado na frase do poeta Glauco Mattoso: "É melhor ser sapão no brejinho do que sapinho no brejão". Em vez de se curvar às leis de mercado, que segundo eles comandam a Flip, buscam estabelecer novos paradigmas para as relações entre editoras e leitores.

– Queremos dizer não ao marketing que traz à Flip essa ideia de circo. O que fica evidente com a Chicomania que vimos aqui, por exemplo – dispara Rosp. – Com certeza muitas dos que estavam lá na conferência do Chico Buarque nem leram Leite derramado, é tietagem pura. Querem só autografar o livro para deixar na estante.

Laura Bacellar, da Malagueta – que se autointitula "a primeira casa editorial lésbica da América Latina" – enxerga como grande gargalo para as pequenas editoras no Brasil a questão dos pontos de venda. Além do preconceito, observa, as livrarias brasileiras manteriam o hábito de dedicar seus melhores espaços às grandes editora.

– Nas estantes, nossos livros ficam oprimidos – reclama Tostes. – Há também o problema do ‘jabá’, que faz com que os livros de grandes editoras ganhem mais exposição.

Para driblar a ditadura das livrarias, os autores/editores da Poesia Maloqueirista circulam vendendo seus livros em pontos culturais, como cinemas na Avenida Paulista e bares da Vila Madalena, em São Paulo, ou fazem plantão em frente aos museus.

Utilizando o espaço público, Berimba de Jesus, por exemplo, esgotou a tiragem inicial de mil cópias de seu livro. Na livraria, conta, dificilmente venderia mais de três exemplares.

– É trabalho como qualquer outro – avalia. – Se sairmos todo dia para vender, ganhamos todos os dias. Às vezes, rende menos, às vezes mais.

Além da rua, a internet é um dos principais instrumentos de divulgação. A Não Editora, por exemplo, conseguiu encontrar um público segmentado para seus romances de ficção científica graças a comunidades do Orkut. Muito mais simples do que sair pelas calçadas procurando por fãs do gênero entre os milhares de passantes. A ferramenta, porém, tem seus limites.

– A web é uma rede social para fazer divulgação pontual, mas não substitui o livro – diz Hanna Korich, da Malagueta. – Serve para veicular informações que não estão nos meios tradicionais. Mas no nosso site, por exemplo, colocamos pouco texto. Sem contar que a internet não atinge pessoas mais velhas.

Tendência que já domina grande parte do mercado em países como os Estados Unidos, a impressão sob demanda ainda é vista com receio pelos novos editores e não parece uma boa solução.

– A diferença de preço entre uma tiragem de 200 e uma de mil livros ainda não compensa – afirma Tostes, com aprovação dos colegas.

Apesar das opiniões em comum, o grupo de novos editores representa também diversidade quando o assunto é linha editorial. A Não Editora, por exemplo, em funcionamento há cerca de um ano e meio, tem se dedicado a explorar determinados nichos do mercado, a partir de obras de jovens autores. Em seu catálogo, há títulos de ficção científica e textos com temáticas como sexo e homossexualidade. A Poesia Maloqueirista, que já existe como selo há 8 anos, tem como principal cria a Revista Não funciona – mas já publicou desde autores estreantes até notórios como Marcelino Freire e Glauco Mattoso.

Já o selo Off Flip, lançado no ano passado para publicar textos premiados no evento, tem como objetivo principal abrir espaço para novos autores da região e outros cantos do país. Mas também há planos de criar uma coleção que dê destaque à produção lusófona, publicando textos de autores de outros países, conta o responsável Ovídio Poli Júnior.

Para a Malagueta, no entanto, linha editorial foi o embrião responsável pela criação da casa que tem perfil mais bem delimitado:

– A literatura lésbica não tinha ainda nenhum canal, e é essa a nossa função – explica Laura, acrescentando que as autoras da casa, como Karina Dias e Mariana Cortez, que ganharam visibilidade com seus sites, já têm até fã-clubes organizados.

Segunda-feira, 06 de Julho de 2009 - 00:00









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