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Índice - Caderno B

O escritor encontra o escritor

Destaque em festival de Paris, ‘Um romance de geração’ estreia sob a égide da autocrítica

Luiz Felipe Reis

Finalizado quase uma década depois do lançamento do documentário 2000 nordestes (2000), o primeiro longa-metragem de ficção do diretor e roteirista David França Mendes, 46, Um romance de geração, investe num formato curioso: mescla ficção, elementos documentais, teatro e literatura com propriedade autoral. Com estreia prevista para 22 de maio, após debutar no Festival de Cinema Brasileiro, em Paris, a comédia dramática, uma adaptação do romance homônimo cunhado por Sérgio Sant’Anna, narra o encontro entre um escritor decadente e uma jornalista que vai a seu apartamento para entrevistá-lo. Como fio condutor da fita, o diretor levanta a discussão se Santeiro é apenas um escritor bloqueado em seu processo criativo, ou se é mesmo um fracasso, uma farsa completa a ser desmascarada por sua interlocutora.

– É um questionamento que me pertence. Mais a mim do que ao filme ou ao livro. E acho que a maioria das pessoas acaba interpretando que ele é, sim, um escritor, mas em crise momentânea – acredita o diretor. – Durante todo o filme o espectador vê que estamos num cenário. Deixamos aparecer os equipamentos e o figurino não é de época. Mas não é propriamente minha intenção discutir os limites entre ficção e documentário. Apesar de o filme, é claro, servir bem ao propósito. Sabia que poderia gerar esse tipo de desdobramentos.

Alternando-se na mesma função, a de repórter, as atrizes Nina Morena, Susana Ribeiro e Lorena da Silva rodaram as cenas do longa, em três versões completas e diferentes. Coube à montagem definir quem surge à frente de Santeiro em cada um dos planos e cortes finais. Para explicar o método, David conta que buscou acompanhar e transportar para o cinema uma série de mecanismos metalinguísticos que o texto de Sant'anna exibe.

– O livro tem uma estrutura de peça, mas é caracterizado como um romance. No meu caso, decidi brincar e interferir na linguagem. Os atores num momento são personagens, mas em outros são eles próprios... O curioso é que as pessoas rapidamente entendem quando é um e quando é outro.

Coincidências de uma geração

Programados para estrear no mesmo dia, os longas Um romance... e Budapeste, dirigido por Walter Carvalho, resguardam uma série de similaridades. Se o primo pobre, montado por França sem apoio de leis de incentivo, recupera a obra de Sant’Anna, publicada pela Civilização Brasileira, em 1981, o último dá luz e movimento aos escritos de Chico Buarque. De um lado, um escritor que ostenta em seu currículo apenas uma publicação, laureada pela crítica, mas que se vê entregue à vodca e às corridas de cavalos. Do outro, um ghost-writer exaurido, às raias da loucura em meio a um impasse criativo e existencial.

– Ambos resultam de adaptações literárias para autores que admiro. E há mais coincidências aí – alerta França. – Walter foi um dos primeiros a assistir ao filme, assim que tive um corte mais ou menos decente. Além disso, quando soube que iria filmar Budapeste, eu me candidatei para escrever o roteiro. Fora que Sérgio e Chico são da mesma geração. São muitas conexões.

Depois das filmagens do conto A senhorita Simpson, montado por Bruno Barreto sob o título de Bossa nova, e do romance Um crime delicado (1997), levado às telas por Beto Brant, em 2005, Sant’Anna decidiu participar ativamente da elaboração cinematográfica de Um romance..., no qual reflete sobre a ditadura.

– Sérgio foi um parceiro. Falei que não havia grana. Ele cedeu os direitos e eu contei sobre como gostaria de trabalhar, minha vontade de interferir na linguagem da adaptação – conta França. – As cenas desses debates também foram incluídas no filme. Falamos sobre o panorama da ditadura, o raciocínio ideológico, o comportamento sexual até o engajamento cultural e político, a arte como força revolucionária... Algo hoje praticamente datado. Acredito que o fisgamos pelo caráter experimental.

O que Santa’Anna confirma e complementa:

– Trata-se de uma "chanchada cabeça". Sem sentido pejorativo. É um filme de humor rasgado, como o personagem: autocrítico e irônico. Mas muito inteligente.

Domingo, 10 de Maio de 2009 - 00:00









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