Após um ano e meio de negociações, o grupo que revelou Renato Russo ganha site oficial, administrado pela gravadora EMI e coordenado por Jorge Davidson, um dos primeiros produtores da banda brasiliense
Braulio Lorentz e Ricardo Schott
No vídeo de apresentação da versão beta do site www.legiaourbana.com.br, primeiro portal oficial da banda brasiliense desde que foi criada, em 1982, o guitarrista Dado Villa-Lobos e o baterista Marcelo Bonfá ostentam um semblante que não reflete lá muita empolgação deles mesmos e dos outros interessados no projeto: a gravadora da banda, EMI; e os fãs que mantêm a Legião bem cotada nos rankings de vendas mesmo 13 anos depois da morte do vocalista Renato Russo. Após um ano e meio de negociações sobre a distribuição digital do conteúdo do grupo de Brasília, finalmente bateu-se o martelo, em dezembro de 2008.
– O site vai centralizar finalmente o conteúdo oficial da Legião Urbana. O cara vai poder interagir lá dentro – comemora Villa-Lobos. – O catálogo gera grande interesse do público. Não tinha um site por uma questão administrativa. As pessoas envolvidas não se dão tão bem.
Mesmo que reconheça a necessidade de ter um canal de comunicação com os admiradores de seu (não tão) finado grupo, Villa-Lobos não esconde que sua presença no projeto soa, para ele, um tanto fora de lugar:
– Minha vida hoje não é pautada pela Legião definitivamente. Vamos ter um canal de manutenção de informação, pode ser blog. Vou fazer o possível para administrar esse legado, parte fundamental da minha história. Temos que manter certa coerência, uma linha de verdade.
Baú vasculhado
Coordenador-geral do portal, o produtor Jorge Davidson atua como curador do projeto. Ele estava na gerência artística da EMI no auge do rock oitentista, participando do início da carreira de Blitz, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso e, claro, Legião Urbana.
– Meu trabalho é mais amplo – explica Davidson. – Fui convidado no ano passado porque tenho toda uma memória relativa ao trabalho com eles naquela época, o desenvolvimento da carreira. Peguei o grupo num estágio ainda semiprofissional e vi a explosão total.
O produtor conta que foi preciso vasculhar no baú do grupo. Álbuns, arquivo de fitas, fotografia, vídeos, programas de televisão e outros artigos ajudam a recontar a história de hits como Será e Índios.
– As pessoas que estão na EMI hoje sabem sobre a banda, mas não têm o conhecimento histórico daquela época – conta. – Fomos atrás de um material de arquivo que ficou perdido por todos esses anos.
A equipe buscou os fotógrafos das sessões de cada lançamento e produtores dos vídeos. Tudo foi feito a partir dos contatos de Davidson, Villa-Lobos e Bonfá. Entre os que colaboraram estão o empresário Rafael Borges; Fernanda Villa-Lobos, mulher de Dado e capista de discos da banda; e Maurício Valladares, que fotografou o grupo.
– Quem estava em volta da banda naquele período foi procurado – garante Davidson, lembrando que parte do trabalho havia sido feito pelo pesquisador Marcelo Fróes.
Ele diz que cada disco será relançado em CD e vinil, incluindo entrevistas e encantes caprichados. As entrevistas estarão no site, assim como itens indispensáveis como biografia da banda, discografia comentada e rede social para fãs.
Gerente de novas mídias da EMI, José Pena identificou há três anos que existia uma grande oportunidade de lucros com o catálogo por meio da distribuição digital.
– O planejamento foi feito em julho – revela. – O domínio do site é da EMI. Não é o portal de nenhum deles, é da banda. Vai ser um espaço para comunicação com os fãs.
Para Pena, ainda não existia um caminho para os fãs interagirem com a banda. O site deve ser ancorado em algum portal como Terra ou Uol, ainda não definido. A versão teste, que está no ar desde março, apresenta apenas o vídeo de boas-vindas da dupla do Legião e um formulário para cadastro.
– Queremos ouvir o fã, o tipo de música, conteúdo, vídeo, entrevista que podemos empacotar e entregar para milhões de pessoas – explica. – A gravadora não é contra a distribuição de conteúdo sem que o consumidor pague. A publicidade pode entregar grátis.
Bruno Maia foi chamado para pensar a disposição do conteúdo. O jornalista trabalhou um ano na EMI, lidando com a inserção das bandas da gravadora na internet.
– Consegui liberar com um fã o domínio legiaourbana.com.br – lembra Maia. – Pela minha empolgação, me chamaram para o projeto. Era uma contradição absoluta não ter um site oficial. Os fãs mantinham a banda viva com vídeos no YouTube muito bem acessados.
O fanatismo dos seguidores do trio impressiona Maia. Antes que a EMI divulgasse, quase mil pessoas já tinham se cadastrado. Descobriram o site antes do lançamento oficial.
– Era evidente que deveria ser movido por fãs, até porque a banda não tem mais lançamentos. Eles podem reconstruir a memória e a história da banda – acredita Maia.
Bonfá é outro que lamenta a demora para a Legião Urbana ter ganho uma página na web.
– Talvez tenhamos sido a última banda a entrar nesse mercado. Esse site foi uma condição minha ao fechar o contrato de distribuição digital – relata o baterista.
O músico diz que se dedica à internet desde 1996 e acompanha o desenvolvimento das potencialidades. Lança os discos de sua carreira solo em seu site, por exemplo.
– Quando falei do site disse que tinha que ter um webmaster top e ser administrado pela EMI obviamente. O que ele tem que fazer é uma ponte entre o passado e agora – opina Bonfá, acrescentando que é natural vender música pela web, depois de (ironia do baterista) a Legião ser comercializada "até em ferro de passar roupa".
A principal dificuldade, opina, foi o fato de a administração da marca estar nas mãos dos advogados da família de Renato Russo.
Quinta-feira, 07 de Maio de 2009 - 00:00