Leia JB - País - Pág. 8

Opinião - Editorial - Ponto crítico da educação de base

O ensino médio está desenganado, informou uma elucidativa reportagem de Carlos Braga, publicada ontem no Jornal do Brasil, na seção Os rumos da educação. Como mostrou o texto, são cada vez mais profundos os abismos que separam os jovens dos bancos de escola. O fundamento para essa conclusão vem do censo escolar realizado em 2007 que balizou o seminário A crise de audiência do ensino médio. Os dados são eloqüentes e mostram que metade dos matriculados no primeiro ano do ensino médio não chega a concluir o terceiro ano. Os motivos básicos são dois: a maioria dos alunos trabalha durante o dia e não consegue estímulo suficiente para ter um bom aproveitamento nas aulas; o outro reside nas próprias aulas que, por falta de um objetivo concreto, quer seja, preparar o aluno para o vestibular ou para o mercado de trabalho, acabam desestimulando o já sacrificado estudante.

Diante da conclusão, parece urgente que o poder público tome alguma providência capaz de mudar, mesmo que a longo prazo, essa realidade. Aumentar a faixa de idade obrigatória para o jovem cidadão continuar matriculado na escola é uma idéia benéfica, mas garante apenas a manutenção do adolescente, enquanto um número de estatística, presente na escola. Hoje a matrícula é obrigatória dos 6 aos 14 anos. Pela proposta passaria a ser dos 4 aos 17 anos. Em absoluto, a mudança representa o engajamento dessa pessoa na vida acadêmica em sua plenitude. Mudar o currículo soa como uma saída mais próxima da real necessidade que se descortina para a sociedade e autoridades educacionais, mas igualmente não é solução definitiva para prender o aluno até os últimos anos do ensino médio.

A reformulação dos hábitos presentes no meio educacional, cultivados por longa data, talvez seja a saída mais indicada neste momento. Um investimento de longo prazo se faz necessário para reverter os anos de destruição impostos ao setor educacional no país, que incluem ações como requalificar os profissionais de educação para uma nova realidade entre seus alunos, além de mudar e diversificar os métodos de ensino aplicados em sala de aula. Iniciativas como a do professor do Ciep Ayrton Senna, na Rocinha, citada na matéria publicada pelo JB, são um exemplo de como a simples introdução da música na vida do aluno pôde proporcionar mudanças profundas, inclusive profissionais. Neste caso, as aulas de flauta evitaram que o jovem integrasse as fileiras do tráfico.

O país precisa de mudanças no ensino tradicional, hoje um dos maiores desafios dos governantes. Sabe-se, contudo, que a contenção da fuga dos alunos das escolas não é tarefa fácil. Há décadas, o Brasil não tem feito o dever de casa no quesito educação. Os parcos investimentos resultam em crianças despreparadas que entrarão na fase adulta sem o necessário para assumir uma vida profissional digna. Dotar escolas de meios tecnológicos e humanos apropriados para que ela deixe de ser um penoso sacrifício para os que necessitam trabalhar precocemente não é o suficiente. A escola precisa de um diferencial que cative o aluno e o prepare para ingressar na vida economicamente ativa sem deficiências. É preciso associar a meta educacional com uma política social capaz de evitar que o jovem seja empurrado precocemente para o mercado de trabalho. É dessa capacidade de estender o sonho de uma educação de qualidade que se confirmarão os prognósticos de desenvolvimento.

Terça-Feira, 16 de Dezembro de 2008 - 02:00

publicidade