Retração da liquidez anula efeito da classificação do país em grau de investimento
Silvia Rosa
SÃO PAULO
A crise no mercado internacional praticamente anulou os efeitos da obtenção do grau de investimento pelo Brasil, elevando os prêmios do risco-país.
O risco-Brasil medido pelo índice Embi+ do JPMorgan chegou a bater 359 pontos básicos em 17 de setembro, logo após a quebra do banco de investimento Lehman Brothers, recuando, em 3 de outubro, para o patamar de 348,97 pontos básicos, porém bem acima do alcançado em junho, de 175 pontos básicos, logo após a elevação do Brasil a grau de investimento pela segunda agência de classificação de risco, no caso a Fitch Ratings.
Só em setembro o Embi+ Brasil teve alta de 38,03%. A elevação do risco-Brasil, porém, ainda está abaixo da média da América Latina, medido pelo Embi+ AL, que estava, em 3 de outubro, em 475,66 pontos básicos.
O Emerging Markets Bond Index – Brasil (Embi+ Brasil) é um índice que reflete o comportamento dos títulos da dívida externa brasileira, utilizado pelo como parâmetro de avaliação da capacidade de um país honrar os seus compromissos financeiros. Ele corresponde à média ponderada dos prêmios pagos por esses títulos em relação a papéis de prazo equivalente do Tesouro dos Estados Unidos, tido como de risco praticamente nulo. A cada 100 pontos expressos pelo risco-Brasil, equivale a uma sobretaxa de 1% sobre os papéis dos EUA.
Outra medida utilizada para medir a aversão ao risco dos ativos brasileiros no mercado externo, o CDS (Credit Default Swap) dos papéis da dívida externa brasileira também apresentou forte alta nos prêmios de risco. O prêmio de risco-Brasil medido pelo swap de crédito (CDS) de vencimento em cinco anos estava a 210,80 pontos básicos no dia 2 de outubro, taxa bem superior ao nível mais baixo alcançado pelo CDS, no início de junho deste ano, a 85 pontos básicos.
Para o estrategista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani, a elevação do risco-Brasil é reflexo de um aumento da aversão ao risco no mercado em geral, agravada pela retração da liquidez e incerteza sobre o setor bancário.
Seletividade
– Ele reflete o termômetro do mercado de que o crédito está caro e os agentes econômicos não estão dispostos a fazer empréstimos – diz Padovani.
Segundo Padovani, o aumento do risco-país dos países emergentes reflete a maior seletividade dos investidores, que tendem a buscar papéis com risco historicamente mais baixos.
Destaque entre emergentes Padovani diz que o Brasil hoje está numa posição melhor que em 2002, em que se tinha uma desconfiança em relação ao governo.
– O país está numa posição melhor graças a adoção de uma política econômica responsável, que permitiu ao Brasil acumular reservas e se tornar credor externo líquido – avalia.
Ele destaca que no caso de países como a Argentina, que teve um problema de default (inadimplência) recentemente, o nível de incerteza é muito maior e acaba refletindo num risco-país mais elevado. O prêmio de risco medido pelo CDS da Argentina estava em 1.208,7 pontos básicos em 2 de outubro.
Para Padovani, o Brasil está em vantagem inclusive entre alguns países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), como a Rússia, que enfrenta grave crise bancária, além da ingerência do governo e grande dependência do petróleo. O prêmio de risco medido pelo CDS da Rússia estava em 260,30 pontos básicos no período.
De acordo com Rodrigo Boulos, tesoureiro do Banif Investment Bank, apesar de ser utilizado como parâmetro para a determinação das taxas dos bônus brasileiros emitidos no exterior e nas operações de crédito realizadas lá fora, a alta do risco-país não deve ter impacto para as operações brasileiras, uma vez que esses mercados estão fechados por conta da crise no setor financeiro. – O mercado lá fora está fechado para novas emissões e provavelmente quando retornar o risco-Brasil deverá estar mais baixo – ressalta.
No mercado externo, o risco dos títulos privados é medido pelo CDX, índice de cesta de títulos de companhias de mercados emergentes e norte-americanas.
No Brasil a BM&F Bovespa iniciou em março deste ano a negociação de contratos futuros de CDS da dívida externa brasileira. O Balcão Organizado de Ativos e Derivativos (Cetip) também estuda oferecer um contrato a termo do índice de CDS de títulos soberanos. A instituição já oferece contratos de CDS, conhecidos no Brasil como swaps de crédito.
Segunda-Feira, 06 de Outubro de 2008 - 02:00