Em sua estréia no Recife, Marcelo Camelo apresenta as novas canções, arrasta 3 mil pessoas para teatro, mas não abandona o repertório dos Los Hermanos
Rodrigo Édipo
ESPECIAL PARA O JB, DO RECIFE
Tudo passa, uma das novas músicas de Marcelo Camelo com mais ecos das baladas dos Los Hermanos, marcou a primeira apresentação solo do cantor e compositor no festival recifense No Ar – Coquetel Molotov. A expectativa era: aquele monte de canções díspares, de cores mpbísticas iria funcionar? E o Hurtmold, banda acompanhante, experimental, quase jazz, seria amelhor saída? Como iria se portar Marcelo Camelo sem o resto dos Hermanos? Ele foi logo fazendo o meio de campo com os pernambucanos para quebrar o gelo.
– Tinha que ser aqui. Tinha que ser hoje. Tinha que ser no Recife. Tinha que ser com vocês – disse Camelo, com olhar fixo para o público de cerca de 3 mil pessoas amarrotadas no Teatro da UFPE.
Recife, de fato, significa muito para ele. Foi nos (bons) shows no festival Abril pro Rock em 1998 e 1999, que seu antigo grupo – em recesso desde o ano passado – estourou no Brasil e se tornou o grande nome do pop rock dos anos 2000. Na platéia, fãs que já conheciam bem o repertório de Sou, lançado há duas semanas. O séquito de orfãos do Los Hermanos manteve uma postura histérica, entoando as novas canções em troca de declarações de amor à cidade feitas pelo ídolo.
Após 30 segundos de aplausos, o show iniciou com Camelo dedilhando o violão, sozinho no palco. A produção do evento – em vão – pediu para o público permanecer sentado. Contudo, o clima já era de total entrega.
Dueto com a platéia
Logo após, surgiu o grupo paulistano Hurtmold, que dá tons cool ao projeto. O despojamento visível no palco é reflexo do próprio relacionamento de Camelo com seus convidados, que mal sabem explicar por que dividem o palco com o ilustre hermano. O baterista Maurício Takara desvia o olhar, mas não se esquiva do assunto.
– Não existe um motivo tão claro para o convite – despista Takara. – Foi uma conjunção de fatores que acabou nos juntando. É um lance que vale a pena.
Téo e a gaivota é a segunda música. A execução é bem amarrada e fiel ao disco, acompanhada a plenos pulmões pela platéia. O carimbó Menina bordada ganha uma pegada mais rock ao vivo. Doce solidão, canção que melhor representa Camelo hoje, soa como um grito de liberdade comedido, como se fechasse um ciclo criativo aberto há três anos com o lançamento do disco 4 do Los Hermanos. Mais uma vez sozinho no palco, faz singelo dueto com a platéia, ancorado por assovios.
Camelo, então, chama sua pupila Mallu Magalhães, de 16 anos, escalada para o dia seguinte no festival. "Malluzinha", como o cantor a chama, sobe ao palco sem jeito, tímida como de hábito, e recebe um longo abraço do compositor, como se precisando de algum suporte após ser tão incensada pelo público. Nitidamente emocionado ao ver o choro da garota antes de começar a cantar, Camelo canta Janta, num dos momentos mais bonitos da apresentação.
– Poxa, se eu puder falar com essas palavras, se essas palavras servirem: é muito amor para um palco só – se derrete Mallu, no backstage.
A participação de Mallu não parou por aí. Em mais um momento, ela volta para engrossar o coro na música Morena (sucesso do Los Hermanos) e - próximo do final do show - Tchubaruba. Naquela ocasião o teatro estava em estado de graça. A presença da moça deu um gás a mais ao show.
Caos carnavalesco no fim
O show continua com a baianidade de Vida doce. Em clima de missão cumprida, também teve espaço para faixas hermânicas como Pois é e Dois barcos. Com sorriso estampado no rosto, o cantor contemporiza:
– Não dá pra começar nada não sendo por aqui, que seja com pé direito essa nossa digressão – disse, para logo depois atacar de Santa chuva e se despedir com a marchinha carnavalesca Copacabana.
O teatro virou um verdadeiro caos, entre gritarias e festa.
Segunda-Feira, 22 de Setembro de 2008 - 02:00