Leia JB - Caderno B - Pág. 4

Joe Hill e um denso ‘fantasma’ ao seu redor

Autor admite influência do pai, Stephen King, mas diz ter vida própria

Bolívar Torres

O escritor Joe Hill é mesmo filho do homem. Seu pai, o americano Stephen King, é o mais conhecido autor de livros de horror das últimas décadas, com 350 milhões de cópias vendidas e diversas obras adaptadas para o cinema. Hill, cujo nome de batismo é Joseph Hillstrong King, decidiu adotar o pseudônimo para driblar o pistolão editorial e vencer na carreira com suas próprias forças. Ao ver seus originais serem rejeitados um por um pelas editoras, percebeu que estava no caminho certo. E persistiu, até conseguir, em 2005, publicar na Inglaterra uma edição limitadíssima (apenas 1.700 cópias) de sua primeira coletânea de contos de horror, Fantasmas do século 20, que acaba de ser lançada no Brasil.

Desmascarado pela revista Variety em 2007, depois que seu romance A estrada da noite freqüentou por algumas semanas a lista dos mais vendidos, Hill assumiu a contragosto sua identidade, ao mesmo tempo em que tentava se afastar da sombra de Stephen King.

– Ele é meu pai, não há muita coisa que eu possa fazer em relação a isso – resigna-se Hill, em entrevista ao Jornal do Brasil. – Entendo que as pessoas fiquem curiosas. O importante é que os dois livros que escrevi têm vida própria.

Estilos diferentes

No início da carreira, o escritor bem que tentou evitar o gênero que fez a fama de seu pai, com seus fantasmas e psicopatas. Mas acabou se aventurando pelos mesmos caminhos sombrios. Mesmo assim, Hill vê diferenças estilísticas entre os seus livros e os de seu pai.

– Compartilhamos valores e preocupações semelhantes na maneira de contar uma história e criar temas. Mas meu estilo é bem diferente do estilo do meu pai – observa. – A voz narrativa dele é mais casual, conversativa, e sempre brinca com o fluxo de consciência. Já a minha é mais abrupta. Costumo sempre trabalhar com frases que pareçam aforismos.

Quando perguntado sobre suas influências, no entanto, o autor de Carrie, a estranha e O iluminado aparece como o primeiro – e único – da lista.

– Mergulhei fundo nas obras do meu pai desde que tive idade suficiente para lê-las – admite. – Acho que o primeiro livro dele que li foi O talismã (escrito em 1983, em colaboração com Peter Straub). É um bom livro para começar, já que é uma história de aventura para garotos, repleta de magia, monstros e escapadas heróicas. Mas meu livro favorito é provavelmente A hora da zona morta, que eu considero uma perfeita tragédia americana.

O conto de abertura de Fantasmas do século 20, ao menos, não podia ser mais Stephen King. Intitulado O melhor do novo horror, é a história de um frustrado editor de antologias de terror, que acreditava já ter visto todo tipo de histórias do gênero, até dar de cara com Button Boy, um conto perturbador escrito por um certo Peter Kilrue. Como nos melhores livros de seu pai, Hill reflete sobre a própria criação, com personagens divididos entre a alta literatura e as narrativas pulp. No fim, uma floresta escura surge como o símbolo do labirinto angustiante da criação literária.

Em todos os contos, o autor entra de sola, causando um estranhamento imediato logo no primeiro parágrafo. Suas histórias acrescentam uma dose de humor nonsense ao horror. Pop Art, por exemplo, começa com a narração bizarra de um garoto: "Quando eu tinha 12 anos, meu melhor amigo era inflável. Seu nome era Arthur Roth, o que significa que, além de ser inflável, era judeu". Já Vocês irão ouvir o canto do gafanhoto parodia Kafka sem pudores: "Francis Kay acordou de sonhos que não eram nada angustiantes, mas exultantes, e descobriu que tinha virado um inseto".

– Não gosto de fazer o leitor perder tempo – explica Hill. – Eu acho importante você colocar seu livro na direção certa: na primeira página, no primeiro parágrafo, na primeira frase, até mesmo no título, se puder. Como o escritor Elmore Leonard costuma dizer, uma das chaves para manter a atenção do leitor é escrever apenas aquilo que ele quer ler. Isso significa cenas de ação e diálogos. Certas cenas são intensas fantasias visuais.

Embora se permita escrachos próprios da literatura pulp, dificilmente Hill se aproxima do trash. Seus contos prendem a atenção mais pelo absurdo e pela tensão psicológica do que por descrições anatômicas. Na verdade, Hill parece flertar mais com a literatura fantástica, seguindo uma tradição que vai de E. T. A. Hoffmann a Ray Bradbury.

– Não sei se o tempo em que vivemos tornou a literatura fantástica um gênero mais fácil de ser escrito. Acho que a ficção científica se torna cada vez mais irrelevante. Quem precisa de ficção-científica hoje em dia? Estamos vivendo a ficção científica. Todo trabalho de ficção é fantasia, faz-de-conta. Para cada mudança tecnológica dos últimos 100 anos, no fim das contas o escritor é sempre deixado com a mesma luta, a mesma página em branco que precisa preencher.

Domingo, 21 de Setembro de 2008 - 02:00

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