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Jornal do Brasil - O primeiro jornal brasileiro da internet



Índice - Caderno B

Um explorador ávido e interessado apenas na humanidade

Larry Rohter 
THE NEW YORK TIMES

trópicos, começa com as palavras “Eu odeio viajar e odeio exploradores”. Mas o que fez do antropólogo e filósofo Claude Lévi-Strauss um dos grandes intelectuais do século 20 foi justamente sua avidez pela exploração – não apenas em selvas remotas e sociedades isoladas, mas também os cantos mais distantes da mente humana.

Como um dos pais da escola de pensamento que veio a ser conhecida como estruturalismo, Lévi-Strauss, morto na semana passada, a um mês de seu 101º aniversário, estava sempre à procura de padrões universais, ligações e modos de organização e pensamento. Em sua busca ele iria a qualquer lugar, com uma mente notavelmente aberta e olhos e ouvidos atentos, expostos em Tristes trópicos.

Em 1978 eu fiz minha primeira viagem como repórter à Floresta Amazônica, com um edição em brochura de Tristes trópicos, com uma capa de cor laranja e branco.

Era o único livro enfiado em minha bagagem. Havia se passado cerca de 40 anos desde que Lévi-Strauss, então com cerca de 30 anos de idade, entrara pela primeira vez naquela mesma selva, e eu estava curioso para saber se algo restava daquele mundo que o francês encontrara e descrevera com uma prosa tão maravilhosa e agridoce.

Muita coisa havia mudado. Em vez da precária trilha que ele seguira, orientando-se por postes telegráficos, agora havia uma rodovia, a BR-364, cujas beiradas estavam cada vez mais povoadas com camponeses famintos trazidos de outras partes do Brasil pelo governo militar – um esforço para encorajar a ocupação da Amazônia.

Mas nas mesmas margens da rodovia, ainda era possível achar membros do povo indígena dos nambikwara, muitos deles alquebrados, bêbados ou dementes. Dos quatro grupos com os quais LéviStrauss conviveu – os outros foram os bororos, os caduveos e os kawahibs – ele pareceu particularmente comovido com a saga dos nambikwara. A estrutura familiar e a vida social desses índios viraram o tema de sua tese de doutorado em seu retorno à Europa, em 1939.

Ao escrever sobre os nambikwara, Lévi-Strauss previu o drama e a tragédia de um povo cuja cultura e modo de vida já estavam, naquele momento, claramente condenados. Então, ele foi meticuloso ao documentar tantos aspectos diferentes de sua vida quanto fossem possíveis, das relações entre os sexos e a construção de abrigos à sua dieta, animais de estimação e coleta de pérolas. Antropólogos brasileiros dizem que ainda hoje circulam histórias entre os nambikwaras sobre a visita do “Professor Levi”.

O pensador pode ter sido ainda mais perceptivo em suas observações sobre os caboclos, os mestiços assimilados pela cultura portuguesa que dominavam a região.

Suas descrições de seu comportamento e vestuário foram impressionantemente acuradas. Em minhas próprias viagens, eu com frequência ouvi um modo de falar bastante interessante, que LéviStrauss registrou em Tristes trópicose eu atribuí erronaneamente ao domínio imperfeito que o autor tinha da língua portuguesa.

Um exemplo de outra viagem permanece vívido depois de todos esses anos. Navegando Amazonas abaixo em 1979, encontrei vários barqueiros que ainda acreditavam que o rio era infestado de sereias e monstros. Reconheci vários daqueles mitos descritos em Tristes trópicos. Numa manhã, paramos num assentamento chamado Santo Antônio do Iça: pegaríamos uma carga de borracha e descarregariamos um lote de papel higiênico e refrigerantes. Enquanto matava o tempo no único mercado do vilarejo, comentei com o proprietário do lugar que suas prateleiras estavam vazias.

– Aqui só falta o que não tem – retrucou ele, uma frase que eu tinha lido pela primeira vez poucos dias antes, em Tristes trópicos.

Desde que Francisco de Orellana navegou pelo Amazonas em 1541, a maior floresta tropical do mundo já viu uma boa cota de aventureiros europeus. Mas LéviStrauss não veio procurando ouro, nem a mítica cidade de Eldorado, ou rios e montanhas para serem batizados em nome de algum patrono real da metrópole, nem mesmo de exemplares da flora e da fauna que levassem seu nome. Mais do que a selva, o que o interessava eram as pessoas que viviam lá, numa abordagem profundamente humanista.

Ainda circulam até hoje entre os índios da Amazônia histórias sobre o ‘Professor Levi’

Domingo, 8 de Novembro de 2009









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