Um ano depois, alguns anos antes
Acaminho do Bip Bip, mistura de boteco e útero de pai (sim, a voz carinhosa do boteco tem imensas barbas brancas e chama-se Alfredinho), confiro as manchetes de primeira página na banca de jornais quase esquina com Nossa Senhora de Copacabana e penso: o que será que o Fausto Wolff pensaria, diria e escrevia em sua coluna diária no Caderno B deste Jornal do Brasil? Penso no Fausto porque faz um ano que o mais ferrenho texto da imprensa brasileira cantou para subir (os pássaros sobem cantando, e em seu penúltimo livro, O ogro e o passarinho, ele poemou sobre as paixões mais difíceis). Porque o Bip Bip é o bar onde algumas vezes bebemos, numas nos entendemos e noutras nos desentendemos, ferrenhamente.
As manchetes – que só serviriam para futucar ainda mais a indignação gaúcha e quase de berço do Faustino – versam (no mau sentido!) sobre maracutaias palacianas, compadrios de Senado, concertos desafinados de Câmara, injustiças do Judiciário e a pasmaceira que transforma imbecis de latas em ídolos de barro. Aí penso também no Aldir, amigo querido do velho lobo de todas as horas, sobretudo das últimas, e cantarolo, com os meus botões: “Todo mundo afana, da gangue do Escadinha ao seu Bacana/ Mas a Falange Vermelha, ao menos governa em cana”.
Penso no Fausto Wolff porque do dia em que ele pôs o ponto final em seu último artigo, aos dias de hoje, nada mudou; e o que mudou foi para pior. Penso no Fausto porque, depois de ver o Sarney na TV, choramingando o afeto de avô com a caneta alheia, fico esperando as reações mais violentas das penas dos coleguinhas e não sinto a fúria. Aí, sinto pena. Aí, penso novamente no Fausto e nesses 365 dias sem a sua verve vermelha de ódio.
E também penso no Fausto de antes, de muito antes. Do Pasquim, da Bundase do Pasquim 21. Nas duas últimas publicações, estivemos juntos.
No Jornal do Brasil também (eu editava o Caderno B quando o indomável Wolffenbufftel começou a publicar em suas páginas).
Mais se desentendendo do que se entendendo, mas jamais deixando faltar o respeito nem a admiração.
Já perdemos o Fausto; cuidemos para não perder a ternura, nem a vergonha.
Sábado, 5 de Setembro de 2009