Domingo, 7 de Outubro de 2001
À sombra de Schindler

Viúva de Oscar morre aos 93 anos como a desconhecida salvadora de judeus

ARTHUR ITUASSU

Reprodução
Schindler

O herói Oscar Schindler ficou famoso e virou tema de filme

Era noite de 1945. Em poucas semanas a Segunda Guerra Mundial chegaria ao fim. Quatro vagões levavam 250 judeus nus e desnutridos de Golechau para Auschwitz, na Alemanha nazista. Estes judeus nunca chegaram ao campo de extermínio. No caminho até as câmaras de gás surgiu Emilie Schindler, a mulher do famoso herói Oscar Schindler, imortalizado no filme de Steven Spielberg, vencedor de sete Oscars em 1993. Emilie morreu na noite de sexta-feira, em um hospital de Strausberg, próximo de Berlim, aos 93 anos, praticamente desconhecida, de um ataque cardíaco não confirmado.

''O que eu vi vai além da imaginação. Era impossível distinguir os homens das mulheres. Eles pareciam esqueletos. A luz de seus olhos era como carvão no escuro'', conta Emilie em suas memórias. Ela conseguiu convencer os nazistas a mandar os judeus à fábrica dirigida pelo marido, Oscar, que produzia munição defeituosa para a guerra.

Na fábrica, Emilie cuidou pessoalmente de todos os 250 judeus resgatados. Treze morreram ainda dentro dos vagões. Um imenso galpão se tornou quase uma UTI. Outros três morreram mais tarde, mas 234 agradecem ou agradeceram pelos resto de suas vidas.

Sombra - Essas e outras histórias de Emilie ficaram sob a sombra da notoriedade de Oscar. ''Oscar é o herói. E quanto a mim? Salvei também muitos judeus.'', disse Emilie em uma entrevista a uma rede de TV alemã, em 1999. O título de suas memórias não é à toa: Uma memória onde a luz e a sombra se encontram. O último desejo de Emilie em vida era deixar de ser ofuscada pelos comentários sobre Oscar.

Os dois se casaram em março de 1928, em Zwittau, cidade natal de Oscar, que anos depois, desempregado, juntou-se ao Partido Nazista. ''Apesar dos defeitos, Oscar tinha um grande coração. Ele era amável, gentil, extremamente generoso, mas ao mesmo tempo imaturo. Constantemente mentia e me traía e depois voltava me pedindo desculpas e a gente começava tudo de novo'', lembra Emilie.

Oscar estava com os nazistas na invasão da Polônia, em setembro de 1939. Tomou posse de um apartamento e de uma fábrica que pertencia a judeus. Com o passar dos anos e o aumento da violência nazista, o casal decidiu arriscar tudo para salvar quem quer que pudessem. E foi graças a propinas e persuasões que eles conseguiram manter a salvo todos os seus 1300 empregados judeus, com abrigo e comida, longe dos campos de concentração e das câmaras de gás.

Depois da guerra e de algumas agruras, o casal foi parar na Argentina. Criava galinhas numa pequena fazenda, sustentado pela Organização de Judeus Agradecidos. Mesmo com a ajuda, nenhum dos dois teve sucesso e foi então que Oscar, em 1957, deixou Emilie e voltou para Alemanha, onde teve dois filhos com outra mulher e morreu em 1974. Emilie ficou na Argentina recebendo uma pensão de Israel e US$ 650 do governo alemão.

Prêmio - Já em 1994, um ano depois do filme de Spielberg que a deixou de lado, Emilie recebeu o prêmio O justo entre as nações, de organizações judaicas, junto com Miep Gies, que escondeu a família de Anne Frank na Holanda e preservou o diário da menina. No mesmo ano, duas mil pessoas viram-na acender a chama da memória dos seis milhões de judeus mortos no Holocausto, que fica no Museu da Tolerância, em Los Angeles.

''Ao longo da minha vida, sempre terei uma sincera e eterna gratidão pela querida Emilie. Acho que ela triunfou sobre o perigo por causa de sua coragem, inteligência, determinação para fazer o que é certo e humano. Ela tinha uma imensa energia e era como uma mãe''. O depoimento é de Faiwel Witcher, número 371 da lista de Schindler.

Ainda em 1994, Emilie visitou o túmulo do marido, no cemitério católico de Monte Sion, em Israel. ''Finalmente nos encontramos de novo. Este tempo todo não recebi nenhuma resposta, meu querido, não sei porque você me abandonou. Mas o que nem a sua morte ou a minha idade puderam mudar foi o fato de ainda estarmos casados, é assim que estamos perante Deus. Eu o perdoei por tudo, tudo...'', disse, segundo suas memórias. Sete anos depois, no dia de sua morte, Emilie deve também ter perdoado o mundo por não a ter conhecido.

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