Setor funerário, que movimenta R$ 1 bi por ano no Brasil, promove feira em SP
SÃO PAULO -
Trata-se, sem dúvida, de um dos mais delicados ramos da economia. Sua saúde financeira depende da desgraça alheia, não tem o mínimo charme em termos de marketing e o assunto é visto com preconceito pela grande maioria das pessoas. Mas engana-se quem pensa que o setor funerário trabalha na surdina, sem chamar muito a atenção, com vergonha de suas atividades. Pelo contrário. Negócio é negócio e, como sempre, só sobrevive no ramo quem anuncia seus produtos em alto e bom som. Não à toa, o setor funerário brasileiro edita a cada dois anos uma badalada feira, a Funexpo, que este ano acontece em São Paulo (de 27 a 29 de setembro) e já tem mais de 2 mil empresas inscritas, algumas de países estrangeiros, como Argentina, Equador, Itália e Estados Unidos.
No entanto, ao contrário do que o engraçadinho de plantão pode imaginar, a Funexpo 2001 não terá apenas caixões, velas e coroas de flores expostas por entre os estandes da feira. ''Caixão talvez seja o que menos tem na feira. O forte hoje nesse setor são as empresas de seguro e as montadoras, que apresentam novidades em termos de carros-fúnebres'', avisa Marco Wanderley Viola, 36 anos, o primeiro a reservar um estande na feira para a sua empresa, a Modial, que fatura R$ 1 milhão por ano fabricando castiçais, mantos e outros 200 itens para funerais.
''Muita gente pensa que esse nosso negócio lucra com a morte dos outros'', diz Viola, ''mas hoje o dono de uma funerária até torce para que o sujeito não morra. Se ele viver 100 anos, ótimo. Isso porque há um grande mercado de seguros, os planos funerários, que dão descontos em hospitais e farmácias, além de garantir o próprio funeral. É um plano de vida'', explica ele, que está pensando em lançar um seguro desse tipo no próximo ano. ''É uma área que rende milhões por ano.''
Ramo bilionário - Os números do setor são respeitáveis. Levando-se em conta que morrem anualmente no Brasil cerca de 1 milhão de pessoas e que um funeral básico sai em média por R$ 1 mil, pode-se situar a receita das funerárias e empresas correlatas em torno de R$ 1 bilhão - no mínimo. Mas Lourival Antônio Panhozzi, 40 anos, presidente da Associação Brasileira de Cemitérios e Funerárias (que organiza a Funexpo) e diretor-executivo da revista Diretor Funerário - sim, existe tal publicação - adverte que o setor não está imune à crise.
''Tem gente que diz que nós sempre ganhamos dinheiro porque as pessoas nunca deixam de morrer, mas não é bem assim. Se o poder aquisitivo cai, cai também a demanda por serviços funerários. As urnas ficam mais simples, os velórios mais curtos'', diz Panhozzi, que foi iniciado no ramo aos 15 anos por seu pai. ''Ajudava-o a buscar o corpo e prepará-lo para a cerimônia. Para mim, sempre foi fascinante. Sou um apaixonado pela atividade funerária.'' Mas esse sentimento ficou dúbio quando o pai, Orlando, morreu há cinco anos. ''Foi o momento mais difícil da minha vida. Tive que cuidar do enterro dele. Até então, eu não tinha lidado com a morte tão perto.''
Marco Wanderley Viola, que trabalha no ramo há seis anos, também acha que o mercado de funerárias não é tão fácil como muitos pensam. Ele afirma que existem muitas funerárias de fundo de quintal, empresas precárias que oferecem um serviço barato mas de má qualidade, promovendo uma concorrência que ele considera desleal. ''O cara tem uma marcenaria e acha que é só fabricar caixões que vai ganhar dinheiro. Já vi muitas pessoas falirem porque pensaram assim. O fato é que tem mais gente fabricando artigos funerários hoje do que morrendo.''
Mercado externo - A saída para toda essa concorrência selvagem tem sido, para muitas empresas do setor, o mercado externo. A Busquet, uma das mais tradicionais do país na fabricação de urnas (existe desde 1968), vem há três meses redirecionando sua produção para os Estados Unidos. ''Já vendemos umas 500 urnas e, com o câmbio favorável, poderemos vender muito mais nos próximos meses'', comemora Jorge Antônio Busquet, 54 anos. No Brasil, a produção é de até 9 mil urnas por mês - a mais barata sai por R$ 90 e a mais cara, por até R$ 2 mil. ''O mercado nacional realmente está muito concorrido. Acho que, se o atual cenário de câmbio se mantiver, podemos vender até US$ 500 mil por mês em urnas para os americanos.''
Enquanto o mercado externo ainda não é uma realidade para a maior parte das empresas funerárias brasileiras, feiras como a Funexpo são o palco ideal para elas mostrarem seus atrativos. Quem cha que este é um ramo de atividade que pouco pode apresentar em termos de inovações precisa rever seus conceitos. Que tal uma urna com tampa controlada por controle remoto? Ou urnas para casais? Existem até urnas que trazem as cores e símbolos do time do coração do defunto. ''Mas são produtos que têm pouca saída. Não é todo dia que morrem duas pessoas juntas para serem enterradas no mesmo caixão'', admite Lourival, que lamenta não poder mostrar durante o evento o que de melhor o Brasil produziu até hoje. ''Estive no museu do Louvre, na França, no ano passado, e vi muitas obras de arte funerária. Tudo bem preservado. Aqui, nunca tivemos esse cuidado.''
Preservação - Para Lourival, uma das coqueluches da feira em São Paulo será a tanatopraxia, técnica de preservação do corpo por vários dias, para velórios longos. Foi ele quem trouxe a técnica para o Brasil, há cinco anos. ''O corpo pode se alterar muito, devido a doenças ou acidentes. Com a tanatopraxia, fica natural, como se estivesse dormindo.'' Lourival lembra um caso, ocorrido no início do mês em Botucatu, interior de São Paulo, em que a técnica foi usada a pedido da família. ''Uma mulher foi seqüestrada e o marido morreu do coração quando soube da notícia. Como a família não queria enterrá-lo antes do resgate da mulher, nós o embalsamamos. Ela foi liberada oito dias depois e ele foi enterrado como se tivesse morrido na véspera.''
Feiras como a Funexpo são comuns no exterior. A maior e mais antiga acontece todos os anos nos Estados Unidos, que tem uma tradição de 140 anos em eventos desse tipo. A brasileira é tida, pelo tamanho e pelos números, como a maior da América Latina. França, Espanha, Itália e África do Sul também realizam importantes feiras. O público que as freqüenta é composto em sua maioria por agentes funerários e representantes de empresas de seguro. ''Mas sempre tem curiosos, famílias. Não é um evento fechado nem mórbido'', diz Lourival. A julgar pela festa de encerramento anunciada para a edição 2001, não é mesmo. A organização promete distribuir 500 litros de chope, além de um grande churrasco. Afinal, se a única certeza que temos na vida é a de que vamos morrer, melhor aproveitar enquanto não chega o dia fatídico.