Domingo, 9 de Setembro de 2001
SETE MARAVILHAS: Eleição termina em 2002

Organizador diz que Cristo foi excluído para não provocar uma polêmica religiosa

JORGE HENRIQUE CORDEIRO

James L. Stanfield – 8/91
Muralhas da China

As muralhas da China estão entre as sete maravilhas do mundo: disputa difícil

Às vésperas de completar 70 anos, em outubro, o Cristo Redentor está excluído da maior homenagem que poderia receber. O símbolo do Rio não está entre as 25 obras-primas da humanidade que concorrem, em votação mundial, à escolha das novas sete maravilhas da Terra. Há pouco mais de um ano, internautas de todo o planeta votam no endereço www.new7wonders.org. Já foram computados 5.579.250 votos de 238 países. O palácio indiano Taj Mahal está na frente.

A votação termina em 112 dias e as novas sete maravilhas do mundo deverão ser anunciadas na Acrópole de Atenas, na Grécia, no dia 13 de agosto de 2002. O motivo de não se incluir o Cristo Redentor na lista, segundo o idealizador do projeto, o suíço Bernard Weber, é simples: não provocar uma disputa religiosa. ''Não queremos levantar aspectos religiosos na votação para evitar esse tipo de briga'', diz Weber, 49 anos, cineasta, aviador e apaixonado por história antiga. ''Mas os brasileiros estarão representados numa outra eleição que faremos, em data ainda indefinida, para escolher as sete maravilhas naturais do mundo. A Baía de Guanabara, e todos os seus pontos mais importantes, estará entre os concorrentes.''

O secretário de Turismo do Rio, José Eduardo Guinle, acha um absurdo a exclusão do Cristo Redentor e diz que vai tentar convencer Weber da importância do cartão-postal carioca. ''O Cristo Redentor deveria entrar por ser símbolo do Rio, que é uma das maravilhas do mundo, reconhecida internacionalmente.'' Guinle não entende como o Cristo pode ficar fora de uma votação que inclui a Estátua da Liberdade e a Torre de Pisa. ''Não dá pra comprarar o Cristo com a Estátua da Liberdade, que não tem beleza como estátua e não está numa cidade tão bonita como o Rio. A Torre de Pisa definitivamente não é uma maravilha do mundo. Só tem a fama que tem por causa do folclore de ser inclinada. Na realidade, é um grande erro de engenharia'', provoca Guinle.

Disputa dura - De qualquer forma, o Cristo Redentor, se incluído, não teria vida fácil. Basta dizer que entre os concorrentes estão ícones mundiais como o Taj Mahal, o Coliseu de Roma e as Muralhas da China. Os sete mais votados por enquanto são o Taj Mahal, que lidera com 7,73% dos votos; a cidade maia de Chichén Itzá, no México; as Muralhas da China; a cidade inca de Machu Picchu, no Peru; o Coliseu de Roma; as estátuas Moais da Ilha de Páscoa; e a Basílica de Santa Sophia, na Turquia. Mesmo que o secretário Guinle tenha sucesso em seu lobby, ainda assim é improvável que o Cristo Redentor fosse eleito. Isso porque os votos brasileiros, cerca de 35.000, representam por enquanto apenas 0,63% do total. Isso deixa o Brasil numa modestíssima 14ª posição, atrás de países como Peru (líder entre os votantes, com 24,92%), Iêmen (6° colocado, com 4,87%), Chile (7°, com 4,04%) e até a eterna rival Argentina (11ª, com 1,85%).

O projeto de Bernard Weber começou depois uma conversa que teve com um amigo professor de história antiga. ''Estávamos discutindo quais seriam as sete maravilhas do mundo atual, já que as escolhidas no mundo antigo foram todas construídas antes de Cristo e apenas as Pirâmides de Gizé, no Egito, ainda existem. Nos últimos 2000 anos, a humanidade criou muitas maravilhas. Resolvi então fazer uma página na Internet e promover uma votação mundial.'' As sete maravilhas do mundo antigo são: o Farol de Alexandria, o Templo de Artemis, a Estátua de Zeus, o Colosso de Rodes, os Jardins Suspensos da Babilônia, o Mausoléu de Halicarnasso e as Pirâmides de Gizé.

150 milhões - Hoje, Weber contabiliza cerca de 45 mil votos por dia. ''Acredito que até o final da votação chegaremos a 150 milhões de votos, o que é bastante expressivo.'' Para se chegar aos 25 nomes indicados em sua página, Weber recorreu a um grupo de especialistas, entre os quais um professor de história da arte, um de história da arquitetura, um jornalista, um arqueólogo e um arquiteto. Um grupo de estudantes foi contratado para catalogar as sugestões que chegavam pela Internet.

Seis delas foram incluídas na lista de votação depois da aprovação do grupo formado por Weber: a Opera House, de Sydney, na Austrália; a Igreja da Sagrada Família, em Barcelona; o Empire State Building; a Ponte Golden Gate, em São Francisco; Machu Picchu, no Peru; o Templo de Angkor Wat, no Cambodja; a cidade de Kyoto, no Japão; e a cidade de Petra, na Jordânia. ''Duas outras sugestões chegam freqüentemente, mas ainda não decidimos se entrarão na lista. São as igrejas de pedra de Lalibela, na Etiópia, e os terraços de arroz na Indonésia. Acredito que poderemos chegar, até o fim do ano, a 35 opções para votação''

A idéia de Weber é filmar os lugares escolhidos no formato I-Max, em três dimensões, a bordo de um avião. Um documentário dividido em sete episódios (um para cada maravilha) também seria feito. Weber é formado em cinema pela Universidade de Nova Iorque e trabalhou a partir de 1974 como assistente do lendário Federico Fellini, em Roma. Tem dois longa-metragens no currículo, Hotel Locarno e Cheeeese, além de diversas produções para TV. Paralelamente, atua como conservador do Museu Le Corbusier (um dos maiores arquitetos do século 20), em Zurique, construído por sua mãe, Heidi.

Unesco - A Unesco dá apoio informal ao projeto de Weber e ele espera contar com isso também nos projetos futuros, o das sete maravilhas naturais e o dos sete símbolos da paz mundial. ''A Unesco não pode se envolver diretamente porque é proibida por estatuto. Eles têm cerca de 580 patrimônios históricos cadastrados e não podem privilegiar sete.'' Com ou sem apoio da Unesco, Weber acredita que a votação que vem promovendo pela Internet será reconhecida mundialmente. ''Nossa legitimidade virá dos milhões de votos que estão chegando. A idéia já é popular. Não precisamos de apoio oficial de ninguém. As pessoas estão aderindo por vontade própria. A Internet tem esse poder.''

O custo do projeto até agora foi de US$ 1 milhão, dinheiro que Weber diz ter saído de seu próprio bolso e do deempresários amigos. ''No futuro, vamos vender produtos pela Internet relacionados com as novas sete maravilhas, entre os quais os filmes que produziremos.'' A próxima votação que promoverá será a dos sete símbolos da paz mundial, na qual pretende reunir a partir do ano que vem a pomba branca de Picasso, o cachimbo da paz dos índios americanos e o símbolo flower power dos hippies, entre outros. ''Vai de 2002 a 2004, quando pretendemos anunciar os vencedores ao final das Olimpíadas de Atenas. Afinal, a Olimpíada tem como um de seus lemas ser guardiã da paz mundial.'' Weber já escreveu uma carta ao presidente da Organização das Nações Unidas (ONU), Koffi Annan, pedindo que ele anuncie os sete símbolos da paz no encerramento dos Jogos Olímpicos.

No entanto, o maior sonho de Weber é reconstruir as duas estátuas de Buda recentemente destruídas pelos talibãs no Afeganistão. Para isso, conta com a ajuda da informática. ''Primeiro vamos recriar as estátuas virtualmente em computadores, com o auxílio de fotos tiradas no local. Depois vamos fazer modelos de cinco metros de altura e instalá-los no Museu Afeganistão, na Suíça. Se um dia a situação política no Afeganistão permitir, reconstruiremos as estátuas no tamanho original, nos lugares originais.'' Idéias parecem não faltar a Bernard Weber.

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