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Salvar ou não a Varig


Engenheiro

Vou tocar num assunto polêmico e delicado, com o objetivo de levar o leitor a uma reflexão sobre a posição do governo federal em relação ao caso Varig. Cabe ressaltar que não sou favorável à utilização do dinheiro público para o salvamento de empresas privadas em processos falimentares ou que estejam em situações de endividamento não sustentáveis.

Entretanto, a situação da Varig é particular e deve ser tratada como uma questão sócio-político-econômica, uma vez que envolve uma marca nacional de renome mundial, com um apelo sentimental e ufanista muito grande para o povo brasileiro, e que traz a reboque um contingente humano de 6,8 mil trabalhadores aposentados e 9 mil na ativa, sem contar os seus milhares de dependentes diretos e indiretos, que podem chegar a cerca de 60 mil pessoas, que somadas aos trabalhadores de suas empresas fornecedoras e prestadoras de serviços, passaremos a discutir o futuro de mais de 100 mil brasileiros.

Não gostaria de discutir aqui sobre o leite derramado, pois todos sabem que a Varig sempre teve os vícios de algumas empresas estatais, com nepotismo, excesso de empregados, altos salários e a bengala do erário para amparar seus tropeços do passado. Pode-se associar a tudo isso a histórica gestão predatória da Fundação Ruben Berta, os inúmeros planos econômicos, as instabilidades cambiais, a retração do mercado brasileiro, a desregulamentação do setor aéreo mundial e a omissão federal para a crise de uma concessionária pública da envergadura da Varig.

O que devemos colocar em pauta para discussão, com boa vontade e bom senso, é a saída mais inteligente para salvar a Varig e torná-la novamente o exemplo de sucesso empresarial de outrora. Não podemos aceitar o presidente Lula dizer que ''não cabe ao governo salvar empresa falida''. Tal declaração é muito estranha, já que, no início de seu governo, ele determinou que seus ministros achassem uma solução para a Varig, sob a justificativa de que se tratava de uma marca estratégica para o país. Contudo, todas as soluções propostas foram abortadas dentro do próprio governo, por divergências políticas ou interesses ocultos.

Realmente, aplicação de dinheiro público para socorrer empresas falimentares sempre causou polêmica no mundo inteiro, mas o presidente Lula precisa lembrar-se de que o BNDES já ajudou na recuperação do Frigorífico Chapecó, em Santa Catarina, salvando cerca de mil empregados da demissão e, mais recentemente, atuou para socorrer a Brasil Ferrovias. No cenário internacional, também há casos de ajuda oficial, como na Inglaterra, onde o governo salvou a Rolls-Royce da falência, por razões ligadas ao prestígio de qualidade da indústria britânica e o caráter estratégico da tecnologia de produção de turbinas para aviões a jato.

Então, caro leitor, por que a Varig não pode receber a ajuda do governo? Não estou falando em dinheiro público a fundo perdido, mas numa engenharia financeira básica, com a criação de uma empresa de economia mista, com a mesma marca Varig, cujos sócios seriam seus principais credores públicos e privados, Infraero, BR Distribuidora, Banco do Brasil e empresas de leasing, além do BNDES, que aportaria recursos e converteria parte das dívidas em ações da empresa e lançaria debêntures no mercado, com aval do governo federal. Esta empresa teria o objetivo de gerir competentemente a Varig e devolver para o mercado uma nova Varig, saneada e com valor de mercado. Lógico que não é simples, mas é exeqüível e existem dezenas de precedentes de sucesso dessa natureza.

Marcus Quintella é professor do IME e da FGV.


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[15/ABR/2006]


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