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Uma heroína do nosso tempo
Luciano Trigo
Jornalista e escritor
Mãe e filha adolescente na Bienal do Livro, realizada este mês em São Paulo:
Mãe - ''Eu não aprovo que ela leia esse livro. O primeiro que ela comprou eu joguei fora, mas aí ela me fez comprar outro. Vim aqui quase obrigada''.
Filha - ''Minha mãe não aprova, mas eu me identifico com ela, porque ela brigava muito com os pais e buscou independência''.
Saiu nos jornais. O livro em questão está nas listas dos mais vendidos há várias semanas e já vendeu mais de 80 mil exemplares. A autora, buscando a independência, saiu de casa aos 17 anos, depois de várias brigas com os pais. Volto a citar a reportagem: ''Depois de planejar a fuga, concluiu que o jeito mais fácil de manter seu padrão de vida era se prostituir''. Fecha aspas. O livro relata as suas experiências como garota de programa. Um trecho: ''Transas enlouquecidas, surubas, muitos homens (e mulheres) diferentes por dia, noites quase sem fim. O que pode ser excitante para muitas garotas como eu, na efervescência dos 20 anos, para mim é rotina''. Adolescente mimada da classe média paulistana, ela estudou em colégios tradicionais até encontrar no próprio corpo, ''entre as pernas, a chave da liberdade''. O ponto culminante do livro é o relato de uma transa com oito homens ao mesmo tempo.
A moça já foi capa de revista semanal, e sua obra vai ser adaptada para o cinema. Atrizes globais disputam o papel. Virou celebridade: ''Onde ela vai, começa a juntar gente''. Já está escrevendo o segundo livro e, namorando há nove meses, começa a planejar o casamento. Daqui a pouco, pelo andar da carruagem, vai ganhar um programa infantil na televisão e se candidatar à Academia Brasileira de Letras.
O repórter não a julga. Como ditam as regras do bom jornalismo, aliás. Contrapõe as declarações da mãe e da filha, sem tomar partido. E não se percebe ironia ou condenação quando descreve a opção pela chamada vida fácil. É um texto leve e bem escrito. Um texto, aparentemente, normal.
Mas essa normalidade, justamente, sinaliza que alguma coisa mudou na sociedade, e lanço aqui algumas hipóteses - sem emitir julgamento moral, já que isso está proibido na época de relativismo em que vivemos. Se não, vejamos:
1) Alguma coisa mudou na imagem das prostitutas:
Existe prostituição no Brasil desde o tempo das Capitanias Hereditárias. Garotas de programa em seu formato atual são invenção mais recente, mas todo mundo sabe que elas existem aos montes, freqüentando inclusive os campi de sofisticadas universidades particulares. Por que, de repente, dar a uma delas um status de celebridade, por que esse succès d'scandale, como se ela estivesse revelando algo novo, chocante ou bizarro? (E por que, de repente, uma grife chamada Daspu arrebanha a simpatia geral da sociedade, sobretudo entre a juventude?)
2) Alguma coisa mudou nas relações entre pais e filhos:
''Ela me fez comprar outro'', ''Vim aqui obrigada'', diz a mãe. Talvez a autoridade, essa palavra feia, não tenha sido abolida nas relações familiares, como diz o senso comum. Ela pode ter simplesmente mudado de mãos. A filha obriga a mãe a lhe dar um livro de uma garota de programa, como duas ou três gerações atrás a mãe obrigava a filha a estudar ou fazer os deveres escolares. Os filhos passaram a mandar nos pais. A pergunta é: o que justifica essa nova ditadura?
3) Alguma coisa mudou na nossa escala de valores:
A autora não é uma transgressora, como se pode pensar à primeira vista. Quando sai de casa, a sua primeira preocupação é manter o padrão de vida, que antigamente se chamaria de ''burguês''. Talvez compre roupas na Daslu, inclusive (dificilmente na Daspu).
Talvez ela não esteja errada. Afinal de contas, desde que nasceu é isso que lhe empurram goela abaixo: o importante é consumir e ter bala na agulha. Num mundo cada vez mais privado de horizontes a longo prazo, para que estudar e trabalhar, se é mais fácil se prostituir?
Talvez a mãe devesse sentir orgulho da filha adolescente, que elegeu a garota de programa como ídolo: não é alguém que ameace ou transgrida o sistema em que vivemos, ao contrário, ela trabalha e busca independência financeira, alimentando a dinâmica da economia. Não é uma vítima da sociedade, nem se enxerga assim. Longe disso, ela afirma que se divertia muito com seu trabalho e gostava do que fazia, o que a transforma num exemplo a ser seguido e superado: ''Antes de me criticarem, por favor me superem'', diz um dos últimos posts do seu Blog.
E mais: ela ajuda as pessoas: ''Vários casais comentam que ajudei a vida sexual deles, com as dicas do livro''. Ou seja, escreveu um livro de auto-ajuda, que torna os casais mais felizes. No Blog ela reproduz matérias nacionais e internacionais sobre seu livro - inclusive uma em norueguês, que ela não faz a menor idéia do que diz a seu respeito: ''Se escreveram mal, pelo menos escreveram de mim né?'' Sendo assim, talvez este artigo acabe indo parar lá também.
Bruna Surfistinha é apenas um sintoma. Como todas as esferas da vida foram reduzidas à econômica, perderam-se os parâmetros para julgar o que é certo e errado. Se não podemos julgá-la, já que as convenções morais foram jogadas na lata de lixo do relativismo - como, aliás, as convenções éticas na vida pública, sem maiores conseqüências, como mostra o noticiário - só resta aferir o seu desempenho na vida pela lógica da economia, do mercado e do consumo. Bruna tinha um capital que, por ser perecível, precisava ser aplicado depressa: juventude e beleza. Fez o investimento que trazia o maior retorno no menor prazo: a prostituição. Escreveu um livro, que será lançado nos Estados Unidos e em toda a América Latina, ganhou dinheiro e ficou famosa. Nota dez, Bruna, você é uma heroína do nosso tempo.
[12/ABR/2006]
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