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Réquiem por um marine brasileiro


Miguel Jorge

Jornalista

A morte do marine brasileiro Felipe Barbosa, de 21 anos, na cidade iraquiana de Faluja, num país sobre o qual ele pouco sabia e, certamente, pelo qual menos ainda se interessava, repôs nos jornais brasileiros a presença dos Estados Unidos no Iraque, cujo noticiário perdera espaço para a vitória do Hamas nas eleições legislativas palestinas e para a reação da Casa Branca contra a política nuclear do Irã.

Felipe sofria da ilusão comum a outros jovens de países aliados de Washington (ganhar mais e melhorar de vida), mas o caminhão que o transportava como operador de rádio nas comunicações com as tropas passou por cima de uma mina. Igualmente irônico é seu corpo ter sido enterrado em High Point, na Carolina do Norte, o que parece simbolizar o generalismo absurdo com que o governo George Bush junta os americanos mortos no Iraque aos mortos dos países aliados. Segundo o Pentágono, há 37 mil imigrantes no serviço militar ativo americano, incluindo os lotados no Iraque e Afeganistão. São jovens que, sem oportunidades em seus países, nos Estados Unidos parecem ter tido motivos mais que convincentes para ir à guerra.

A morte de Felipe nos remete ao também lamentável envio pela Organização das Nações Unidas (ONU) de uma tropa brasileira ao Haiti, com o apoio do governo Lula, e a do mineiro Jean Charles, fuzilado pela Scotland Yard num trem subterrâneo em Stockwell, sul de Londres, suspeito de ser um terrorista.

Mas o caso do marine Felipe ilustra com perfeição a ilusão de um conflito que, segundo o presidente Bush, libertaria o Iraque, mas que, segundo o ex-ditador iraquiano Saddam Hussein - cujo julgamento se arrasta penosamente em Bagdá, com ameaças de boicote dos seus advogados - ''está apenas começando''. As promessas de Bush de que o Iraque sofreria uma transição rápida após a ocupação nunca se concretizaram. Pelo contrário, a violência aumentou, o número de vítimas cresce sempre e Bush ainda não sabe quando retirará suas tropas.

Se tivesse voltado vivo à Carolina do Norte, para onde foi em 1994, Felipe seria hoje definido como um ''veterano de guerra'', com todas as seqüelas que um conflito desse tipo provoca nos solados. Talvez merecesse uma medalha, tivesse juntado algumas centenas de dólares e uma licença para passar as férias em Goiânia, onde vive seu pai, o mecânico de aeronaves Robson de Lima Barbosa, que sempre foi contra seu embarque para o Iraque.

Felipe escapou três vezes de ir para a guerra, mas acabou escalado em outubro de 2005. Agora, especialmente para os brasileiros, sua morte fica como um exemplo da inutilidade de um conflito com peso cada vez mais crescente no passivo de Bush.

Há poucos meses, pesquisa Gallup para a CNN e o jornal USA Today concluiu que 54% dos americanos consideravam um erro a invasão do Iraque, enquanto levantamento da revista Newsweek indicava que apenas 34% apoiavam a guerra. Hoje, 76% dos americanos querem a retirada das tropas.

Como para centenas de jovens de países em desenvolvimento, a saída de casa do ''pracinha'' Felipe - assim eram chamados nossos recrutas que combateram na Segunda Guerra - coloca uma situação permanente e difícil de ser resolvida pelo governo Bush. Para atrair jovens para suas fileiras (outra generalização), Tio Sam continuará a buscá-los onde estiverem, oferecendo-lhes cidadania americana no prazo de um ano de residência legal, pagamento de até quatro anos de universidade e um bônus que pode chegar a US$ 40 mil em quatro anos.

Ex-estudante de História, ao se integrar às tropas norte-americanas e viajar para o país no qual encontraria a morte, assinou um documento, como todos os soldados, informando onde queria ser enterrado se morresse em combate.

Escolheu ser sepultado no Brasil.

Mas, hoje, isso teria alguma importância?

Miguel Jorge é vice-presidente de Recursos Humanos e Assuntos Corporativos e Jurídicos do Santander Banespa.


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[22/FEV/2006]


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