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E aquele abraço?
Noel de Carvalho
Deputado estadual (PMDB-RJ)
Tenho por Gilberto Gil enorme admiração. Considero-o um dos músicos mais brilhantes de sua brilhante geração. Compreendo sua limitação como ministro da Cultura, integrante que é de um governo fraco que perdeu a perspectiva. Há algum tempo louvo e acompanho seu entusiasmo na tentativa de consagrar o Samba -expressão maior de nossa cultura - como patrimônio da humanidade.
Agora vem à luz uma verdade que muitos não conheciam. O objeto do esforço do ministro-musico-compositor não é o Samba, aquele que na criação de Zé Keti ''... Leva a alegria para milhões de corações brasileiros''. Não é, para reproduzir um velho samba da Estação Primeira de Mangueira, o samba que se eleva, que voa, ''... Do Oiapoque ao Chuí, até o tão distante...''. Não. O samba não é este! Prevaleceu o outro samba, o de roda da Bahia. Este de origem e batida dos negros Iorubás. Um gênero formidável, sem dúvida, mas já sensivelmente ausente naquele estado e jamais presente nos demais estados. Poucos mineiros, gaúchos, paraenses, entre todos, saberão identificar um samba de roda. Muito menos por todos os cantos do mundo que identificam o Brasil pela marca do Samba. Cabe a cada um de nós perguntar: que papel cabe a um ministro da Cultura diante da possibilidade de elevar o símbolo maior da cultura de seu país à categoria de Patrimônio da Humanidade? Será que Gilberto Gil já era ministro quando requereu tal distinção? Terá o ninistro pegado carona no Samba para praticar o gesto menor de uma patriotada provinciana, puxando a brasa para sua terra, tão querida por todos nós? Tal fato torna-se compreensível para o baiano comum. Não para o artista de sua grandeza. Para um ministro, torna-se inadmissível caracterizando aí intolerante ''oportunismo cultural''. Queremos do ministro o esclarecimento dessas questões. Não como cariocas, como brasileiros! Acima de tudo em busca de uma verdade cultural cristalina. Em respeito à carreira brilhante, repito, não do ministro mas do artista popular Gilberto Gil, baiano sim, mas que um dia abraçou com tal força esta cidade que seu abraço - aquele abraço - alcançou ''Realengo'', alcançou a ''Garota de Ipanema'', a ''torcida do Flamengo'', ''todo o povo da Portela'' e retumbou, como poucas vezes se viu, por todo o Brasil. Nenhum de nós jamais vai esquecer aquele momento. Para tanto, seu formidável talento valeu-se não do samba de roda que agora evidencia, mas do tal samba, aquele com letra maiúscula, sem adjetivação, originário da batida dos negros Bantos. Que frutificou na mistura dos sambistas do velho Estácio de Ismael Silva com os sambistas de Oswaldo Cruz de Paulo Benjamim de Oliveira. Não aquele cantado nos limites da ''boa terra'', mas o outro, tal como aquele da Mangueira, que transpôs as fronteiras cariocas para ser cantado orgulhosamente como sua marca cultural por todo o povo brasileiro: do Oiapoque ao Chuí até o sertão distante. Agora, meu caro Gil, é imperdoável preterir o samba carioca, que faz inclusive o maior espetáculo do mundo, em função de um ranço regionalista e aproveitando-se da ignorância de quem concede um tão importante diploma a uma manifestação musical restrita a uma pequena região do seu estado. Apenas como lembrete e para resgatar ''um anônimo'' seria interessante consultar o depoimento do saudoso Carlos Cachaça, que se encontra à disposição na Liesa, sobre um certo cidadão, há muito falecido, chamado Mano Eloi, natural do distrito de Engenheiro Passos, Resende, um dos mais antigos sambistas de nosso estado. Estava informado disso, meu caro Gil? Quem sabe se o Ministério da Cultura não promove uma pesquisa para ''ressuscitar'' este grande e esquecido compositor? Ninguém melhor do que você sabe que o samba de roda da Bahia, semelhante na melodia e no ritmo ao nosso partido alto, mas sem aquele mote para a improvisação, não representa a cultura de um país-continente como o nosso. Por que então este bairrismo exacerbado, você que nasceu no sertão onde se toca (ou tocava) xaxado, xote, forró, baião, chula e cantos de trabalho e se iniciou na música com a sanfona, ouvindo Luiz Gonzaga? Se for assim, por que não colocar também na lista de patrimônio da humanidade o choro, o cateretê, o maracatu, o carimbó, a catira, o rasqueado e o frevo, entre tantos outros ritmos desses nossos brasis? Realmente não entendi, eu e ninguém.
[18/JAN/2006]
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