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Daniela Mercury proibida no Vaticano


Deonísio da Silva

Escritor

A mídia está invertendo o seu papel. Em vez de garantir a controvérsia, busca padronizações globais. O caso mais recente foi o veto do Vaticano à cantora Daniela Mercury.

O que se pede de quem manifesta uma opinião? Que arroste a sua liberdade, pensará qualquer filho das luzes que as tochas da Revolução Francesa acenderam. Por que a Santa Sé, o Papa ou qualquer autoridade da Igreja deveria render-se à opinião de uma cantora sobre preservativos? Ou todos devemos submissão aos juízos de nossos artistas?

''Depois de se apresentar no Faustão, a cantora Daniela Mercury estará hoje no programa Show Business com João Doria na Rede TV à (sic) partir das 23h00 e no Fantástico na Globo à (sic) partir das 20h30''. Assim estava informado na noite de domingo em www.centraldanielamercury.blogger.com.br. Como se vê, não é apenas a crase que é excessiva, também a inconformidade com o veto à sua participação no Concerto de Natal da Santa Sé, a realizar-se em Roma no próximo 3 de dezembro.

Até o Le Monde caiu na esparrela: ''Le motif avancé par le Vatican est que Daniela Mercury a fait la campagne publicitaire télévisée du ministère brésilien de la Santé prônant l'utilisation de la 'petite chemise de Vénus' (nom du préservatif au Brésil) comme moyen de prévention du sida, lors du dernier Carnaval. L'Eglise ne reconnaît pas l'efficacité du préservatif et prêche l'abstinence sexuelle.''

E se o Vaticano aprofundasse a pesquisa e verificasse o que mais tem feito ou deixado de fazer o ministério da Saúde, a questão talvez pudesse ganhar em compreensão do problema. Não há a mesma disposição para combater a verminose, o carrapato, a corrupção nas maciças compras de remédios, os remédios vencidos nas prateleiras de farmácias de hospitais públicos etc.

Qual é o cerne da confusão da mídia? O mesmo de sempre. A mídia simula ambiente de liberdades ilimitadas, desde que não seja ela a criticada. Mas é preciso pelo menos diferenciar o seguinte: se a Igreja não aprova o preservativo e prega a abstinência sexual, este é um problema dos católicos, cuja grei obedece a uma complexa hierarquia em cujo topo está o Papa, atualmente Bento XVI.

O Domingão do Faustão supôs que altas autoridades eclesiásticas não tinham mais o que fazer, como a maioria da população brasileira nas tardes de domingo, e estavam de olho, não na televisão, mas especificamente naquele programa. Senão como dar a entender ao distinto público que aquelas autoridades citadas poderiam contrariar o Papa?

Precisamos separar as coisas, pois Igreja e Estado, felizmente, estão separados. Ou os críticos da proibição querem inverter de vez a História e pôr no lugar de um totalitário poder teocrático um poder leigo que submeta a Igreja a seus desígnios? No Brasil, a mídia já denuncia, indicia, julga e devasta reputações com a velocidade comum dos irresponsáveis, prejudicando com isso a imprensa séria, que procura comprovar o que apresenta ao público.

Se o leitor pertence a um clube, associação ou entidade, sabe que há leis, estatutos, regimentos a acatar. Muitos católicos discordam das prescrições da Igreja a respeito de temas candentes da modernidade, dos quais o controle da natalidade e das doenças sexualmente transmissíveis é bom exemplo.

Mas como negar à Igreja o direito de convidar para um show determinados artistas e não outros?

Se o Papa tivesse apoiado alguma bandeira da mídia, mesmo que representasse intromissão indevida em assuntos leigos, sua voz seria aceita sem questionamentos.

Portanto, discordar somente quando lhe convém deixa a mídia em situação muito vulnerável. Não é a liberdade que está em questão. É a ditadura de uma mesma opinião sobre qualquer coisa.


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[29/NOV/2005]


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