O tempo de João Paulo II não foi o de mais um pontificado. Mas de uma nova medida da presença da Igreja no mundo. Nem se trata hoje da defesa da cristandade, mas de um testemunho corajoso e sem concessões numa sociedade vertiginosamente dessacralizada. Foi outra a força de Karol Wojtyla como inspirador do ecumenismo, do respeito às culturas e da defesa dos direitos humanos, no seu largo impulso libertário, que se rematou na queda do Muro de Berlim.
Fica, de saída, este contraponto entre o atletismo da figura e a vastidão do peregrino mundial. O ''papa-móvel'' virou um verdadeiro ícone da presença do pontífice na malha urbana de nosso tempo, num contraste tão grande com a sede gestatória do Vaticano confinado, em uso até o pontificado de João XXIII. João Paulo II foi às Mesquitas como às Sinagogas, e desdobrou o pioneirismo de Paulo VI na ida à Jerusalém. Faltou-lhe Moscou, por estritas dificuldades com os patriarcas, e não por causa do governo. Tal como o Cardeal Etchegaray acabava de preparar os caminhos para que o octogenário fosse à Pequim, em toda a aura de aclamação universal.
O Papa, entretanto, não ganhou, para a perplexidade geral, o Prêmio Nobel da Paz. E isto pela extrema secularização do júri escandinavo, que não deixaria prevalecer a mensagem extraordinária da concórdia e do desarme internacional, frente à polêmica em função desses mesmos direitos humanos, da argüição da disponibilidade da mulher ao próprio corpo, diante do respeito irrestrito à vida do nascituro, do acesso sacerdotal feminino, ou da expectativa de abolição do celibato sacerdotal. Contrasta-se, hoje, a determinação do mandamento do Papa Wojtyla, frente às dúvidas e à angústia de Paulo VI em tomar a decisão contra a pílula anticoncepcional, que precedeu à encíclica Humanae Vitae. Mas foi o próprio Pontífice que ora nos deixa, que tomou a decisão de corrigir a condenação de Galileu, mostrando o quanto o precedente pode repetir-se frente à nova complexidade que repta a doutrina, frente aos avanços da ciência, das células tronco à clonagem.
João Paulo II, que avança para além da velha cristandade, desculpou-se, também, pelo da quarta cruzada, que trocou a liberação de Jerusalém pela conquista cobiçosa de Constantinopla; pelos excessos da Inquisição e pela perseguição dos judeus. É esta leitura franca dos entorses, de momentos da arrogância do poder ou dos autos da fé, na caminhada temporal da Igreja que permitiram neste extraordinário pontificado, também o fortalecimento de uma história da santidade no aluvial de canonizações trazida aos nossos dias. Foi esse pontificado também o do devocionário incisivo, trazendo Karol Wojtyla o timbre da Mãe de Deus para o seu próprio brasão, saído das distâncias heráldicas para aquele totus tuus de ressonâncias tão claras, do laço primeiro de Nazaré.
Mãe, também, por essência, foi a Igreja de João Paulo II, trazida ao tronco e à sombra de suas crenças em contraponto com seus dois antecessores, do aggiornamento conciliar, e da palavra à cata dos sinais e da esperança do seu tempo. Empenhos como o das comunidades de base ou da Teologia da Libertação viveriam do mesmo impasse da crise dos padres operários ao fim de pontificado de Pio XII. Mas todo esse magistério de consolidação de Karol Wojtyla manifesta a robustez do Papa filósofo e pensador, da matriz em que a lição de Ratzinger é a desta opção da Igreja presente na sua sacralidade reiterada, e no seu mistério no seio do século.
Não se cansam os historiadores e teólogos, de atentar a este duplo movimento de encarnação eclesial, entre o reforço e o anúncio onde o pontificado de João Paulo II fica no marco de retorno e reencontro do Papa Pacelli, após seus imediatos antecessores. Mas este conservatismo não é o de uma radicalização autoritária, mas deste justo modo, de uma palavra plena que, exatamente, serve de freio à deriva reacionária. E mostra a imensidão da falta agora de João Paulo II, frente aos riscos do mundo hegemônico que mal começa, na garantia da dimensão transcendente do cristianismo. A voz do Papa, mais que nunca se imporia à religiosidades como de Bush, entre a boa vontade na fé dos ''renascidos da crença'', e a falta de consciência crítica de toda confissão evangélica sustentada pela ''civilização do medo''.
João Paulo II nos diria do risco desta nova cruzada que, à guisa de defesa dos valores universais, terminará por impor a sua leitura, sofrida por um mundo sujeito, hoje, a uma estrutura unipolar de poder, sem precedentes. A boa causa da luta contra o terrorismo pode se transformar numa guerra perpétua, das tropas perenemente embarcadas, como da repetição das mulheres bomba. Tal como um governo tendente à direita evangélica como o do Salão Oval, tão só passa ao culto da nova ''nação eleita de Deus'' mas a um fundamentalismo da hegemonia, sobre o álibi da fé.
O mundo volta-se para um novo pontificado, frente a um futuro a merecer a palavra prospectiva da Igreja, no seio da modernidade. E o povo fiel continuará a mirar, no Palácio Vaticano, a vigília das duas janelas acesas de João Paulo II.
Candido Mendes é presidente do Senior Board do Conselho Internacional de Ciências Sociais (Unesco), membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão de Justiça e Paz.