Foi um estudioso da alma humana chamado Eugen Bleuler que cunhou o termo autismo (este registro encontra-se numa correspondência entre Freud e Yung datada de 13 de maio de 1907). Segundo Bleuler, autismo, patologia comportamental, se define como ''o desapego da realidade, acompanhado de uma predominância da vida interior''. Em outras palavras, é uma doença que acomete o indivíduo de um ensimesmamento psicótico em seu mundo interior a tal ponto que o torna absolutamente incapaz de qualquer contato com o mundo ao seu redor. Em conseqüência, não enxerga o outro; vive, quem sabe, de sonhos e fantasmas; vai ao limite extremo da birra e do esperneio, o que seriam sintomas o egocentrismo infantil ou a irreversível fratura esquizofrênica da personalidade.
De outra parte, o autoritarismo é um padrão de comportamento relacionado com as ideologias políticas, o funcionamento de certas estruturas sociais e com uma disposição psicológica a respeito do exercício do poder.
Seria uma injustiça afirmar que o PT é um partido autista e irremediavelmente autoritário (embora sua gênese o seja na avaliação dos mais insuspeitos analistas, como está posto, e bem posto, pelo filósofo Roberto Romano, em entrevista nas páginas amarelas da revista Veja, edição de 16 de fevereiro do corrente ano).
No entanto, que o partido, no episódio da eleição da mesa diretora da câmara, teve um surto monumental de autismo e autoritarismo, não resta a menor dúvida. E o que é mais grave: o surto ocorreu quando o PT completou um quarto de século de existência, diagnóstico identificado sem que houvesse necessidade de submeter o paciente à clássica escuta dos psicanalistas. Todo mundo percebeu.
Ensimesmado, arrogante, presunçoso, enfim, autista, o PT não tomou conhecimento da complexa realidade que caracteriza o Poder Legislativo. Empurrou goela abaixo no partido uma candidatura oficial acreditando na capacidade de influência do Poder Executivo; fiou-se na tibieza de um Parlamento acocorado e sensível às prebendas do governo; subestimou a fermentação da rebeldia entre os integrantes do que, desdenhosamente, a crônica política chama de ''baixo clero''.
De outra parte, sua gênese autoritária que já se mostrou presente em vários episódios e iniciativas do governo (algumas, felizmente, abortadas) e na própria gramática dos discursos presidenciais em que Lula se autonomeou pai cívico e salvador da Pátria (pai de família tem sempre um viés autoritário e salvador, um apelo messiânico e cesarista), revelou-se, mais uma vez, na disposição psicológica de tratar com desprezo os que são supostamente inferiores hierárquicos e os que não têm poder e autoridade.
Deu-se muito mal. Não só quebrou a cara. Quebrou também uma tradição parlamentar que assegurava ao maior partido da Câmara a direção da Casa; expôs dramaticamente o que todo mundo já sabe: a fragilidade dos partidos; debilitou gravemente a capacidade ordenadora das lideranças formais no processo legislativo; e pode, se não se livrar do surto, criar embaraços para a governabilidade que se estrutura sobre uma diarquia: Executivo e Legislativo.
O resultado da eleição que levou à Presidência da Câmara um parlamentar pernambucanamente Severino tem duas leituras: uma de regozijo, aqui na província, pelo que significou de conquista de poder no plano nacional; outra, de ordem mais geral, de preocupação quanto à dimensão que venha ser dada pelo novo presidente à sua atuação como chefe de um dos Poderes da República.
Caso prevaleça uma agenda que consulte os interesses da sociedade brasileira, o presidente Severino Cavalcanti confirmará a tradição pernambucana de produzir políticos com envergadura nacional; caso prevaleça uma agenda corporativa associada a uma agenda inspirada por idiossincrasias ideológicas, certamente, relações tensas e conflituosas colocarão em confronto um Poder e a opinião pública que, há muito, deixou de ser ''um cheque sem fundo'', como alardeava um velho coronel da política pernambucana.
Mais do que esperança, o desejo de todos os querem o bem do Brasil é que a vitória trazida pela conquista do poder não seja um episódio efêmero, um registro triunfal no currículo dos vencedores, mas se constitua na glória do reconhecimento histórico, esta sim, uma inscrição definitiva na biografia dos vencedores.