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Novidade na vida partidária?


Milton Temer

Jornalista

Franklin Martins, no seu programa de debates da Globonews, tornou pública a última reunião do novo partido que começou a se formar a partir da expulsão dos parlamentares do PT. E manifestou curiosidade sobre essa ''nova cara'' no espectro partidário.

Pois bem; quem viu o ensaio da nova cara, conhecendo a ritualística tradicional da esquerda, nos seus vícios e virtudes, pode afirmar: existe algo de novo se movendo. Algo que vai contrariar as manchetes habituais sobre as plenárias ou congressos desse campo ideológico, geralmente marcados por ''rachas'' e ''dissidências''.

Tratava-se de uma reunião da Comissão Provisória Nacional, ampliada pela representação militante de sete Estados. Na pauta, a primeira versão de programa e estatuto provisórios, cuja forma final será desenhada num encontro, em 5 e 6 de junho, em Brasília. São documentos fundamentais, que o Tribunal Superior Eleitoral exige para o pontapé inicial numa coleta de meio milhão de assinaturas, até meados do ano que vem. É a partir do cumprimento dessa brutalidade legal que o partido ganha certidão de nascimento oficial, capacitando-se a participar da eleição de 2006.

Mas não foi a possibilidade de participação eleitoral, inclusive com a previsível candidatura da senadora Heloisa Helena à Presidência da República, que pautou os debates. Pelo contrário. Essa proposta, nascida de citações espontâneas nos atos de lançamento já realizados em uma dezena e meia de capitais estaduais, não foi sequer comentada. Discussões teóricas de alto nível, com preocupação essencial de marcar o caráter libertário da identidade socialista, deram o tom da reunião.

Como construir um partido de lutas, portanto fundado na unidade da ação, sem reprimir a manifestação de divergências sobre questões programáticas? Debate difícil, porque condicionado pela questão estatutária - a que determina os direitos e deveres dos militantes e parlamentares.

Dois fatores se destacaram na quase totalidade das intervenções. Um deles foi o evidente esforço para a busca do consenso, exemplo inédito num partido de tendências (será esse o critério da determinação dos pontos programáticos e estatutários a serem adotados no encontro de Brasília). O segundo fator, e novidade conseqüente, foi a manifesta intenção de ''ouvir o outro''. A ausência da ''cotovelada'' de quem se considera majoritário na contabilização dos votos sob controle, dos braços amorfos, pateticamente levantados no plenário. Isso resultou em abrir mão de exigências próprias, consideradas essenciais. Prevaleceu a intenção prioritária de garantir a convivência com o diferente, que não é obrigatoriamente contrário, num mesmo texto programático ou organizativo. Disciplina pelo convencimento, e não pela coerção que, gatos escaldados, não queriam mais repetir.

Método utópico, que joga para escanteio as questões polêmicas essenciais? Não. Exercício permanente de boa argumentação. Agregador, sem calar a disputa no contraditório. Exemplo: ninguém tenta impor ''seu'' modelo de socialismo. Mas obriga o partido, pela certeza da pluralidade interna, a se capacitar para a reflexão coletiva sobre o caminho da compatibilização entre a utopia da justiça social plena e a liberdade individual permanente. Não define, antecipadamente, detalhes do socialismo libertário, mas afirma o consensual - a negação da convivência com o racismo, com a homofobia, com a corrupção, com a exploração do sexo ou do trabalho infantil. A afirmação, enfim, de que é impossível acreditar em processo de desenvolvimento civilizador nos parâmetros do regime capitalista - o ambiente próprio para as mazelas citadas, e mais outras omitidas, por pudor ou falta de espaço.

Pelo que ocorreu na reunião em São Paulo, caro Franklin, há coisa nova na esquerda brasileira.

PS - O FMI manda técnicos de segunda linha para sabatinar a equipe econômica. Humilhação? Não, para os que auferem altos lucros na especulação do ''mercado'' ou recebem em dólar por conferências, onde defendem ajuste fiscal ainda mais duro. Mas, sim, para quem vive de salário mediano ou baixo, e é obrigado a pagar plano de saúde e mensalidades astronômicas, no ensino privado, por conta do desmonte ''modernizador'' do Estado. Pior, ainda, para quem sequer salário recebe, exatamente por conseqüência do desemprego gerado pelo referido ajuste fiscal rigoroso.


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[05/MAI/2004]


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