Nos 300 anos do Serro

*Paulo Amador

Costuma-se dizer no Nordeste de Minas que o Serro, a bela cidade que coroa o maciço do Espinhaço, é o lugar que produziu para a história do país a maior quantidade de homens ilustres por metro quadrado. E para abonar essa afirmação, capaz de levantar o protesto de outras cidades igualmente célebres pela boa fama de seus filhos, vem a nominata gloriosa dos serranos, encabeçada pela família de Teófilo Otoni, pelos poetas Salomé de Queiroga e Murilo Araújo, pelos governadores João Pinheiro e Efigênio de Sales, pelos juristas Pedro Lessa e Edmundo Lins. Isso para lembrar um tempo em que o Serro, pequena cidade que ainda hoje abriga pouco mais de 15 mil habitantes, ocupava assento na Academia Brasileira de Letras e em boa parte das cadeiras do Supremo Tribunal Federal.

Pois bem, o Serro comemora este ano o tricentenário de sua fundação como assentamento de bandeirantes, que por lá andaram no rastro dos sonhos do padre Aspicuelta Navarro, que imaginava na região minas de prata mais ricas que as de Potosi, e dos bandeirantes Antônio Dias Adorno e Fernão Dias, fascinados pela possibilidade do achamento de ricas jazidas de esmeraldas. E se 300 anos de história não foram o bastante para justificar a fantasia do caçador de esmeraldas, foram mais que suficientes para provar que o Serro Frio do Ivicturuy tinha e ainda tem riquezas muito maiores que a ilusão das minas de prata ou esmeralda.

O povoamento do Serro, berço da civilização em todo o Norte e Nordeste de Minas, tem registro de nascimento datado de 1700, ano em que foram descobertas as minas de Santo Antônio do Bom Retiro do Serro Frio. E já em março de 1702 contribuía para o Fisco, de acordo com assentamentos de Baltazar Lemos Morais Navarro, procurador da Fazenda Real. Começava aí a história de um povoado, depois Vila do Príncipe (1714), e finalmente a cidade (1838), cuja influência e cujo poder, nos tempos da efervescência da economia do ouro e diamante, se estendiam desde as proximidades de Santa Luzia, no centro do Estado, até a fronteira com a Bahia, quase 600 quilômetros lineares ao Norte.

O Serro mantém intactas as dimensões espirituais de seu povo, que o tornam único entre as cidades brasileiras. E embora tenha perdido sua importância relativa no plano puramente estatístico, mantém-se como uma das mais belas atrações para o turismo cultural em Minas. Mantém-se como núcleo urbano conservadíssimo, onde o visitante é surpreendido pela imponência dos sobradões coloniais e das igrejas que preservam uma das maiores concentrações de peças de arte sacra de Minas Gerais.

O Serro é esse passado glorioso, mas é também a cidade que ainda hoje tem ajudado a apurar o olfato e o paladar dos produtores brasileiros de café, produzindo a mais saborosa mistura de grãos. E para acompanhar o melhor café do mundo, oferece o refinamento de um queijo cuja qualidade é tão superior a tudo que se produz no Brasil e no restante, que está em vias de ser tombado pela Unesco.

Isso mesmo: a fórmula mágica e deliciosa do queijo do Serro está para ser reconhecida mundialmente como produto genuíno de uma alquimia regional, que aprendeu a transformar o leite gordo de um rebanho de montanha em um produto que desafia os paladares mais exigentes. E esse queijo tão famoso, inimitável até porque ninguém conseguiria reproduzir em outras terras as condições ideais da bacia leiteira do Serro, além de ser marca de um produto que acabou por servir de emblema a toda a indústria de laticínios em Minas Gerais, presentemente representa muito mais que a bandeira ufanista dos serranos. O queijo é responsável pela vigorosa sobrevivência de toda uma economia regional. No rastro do seu tombamento pela Unesco, certamente acabará por vir o do próprio sítio urbano histórico. O Serro merece.

* Jornalista

[08/MAI/2002]

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