Segunda-feira, 12 de Novembro de 2001
Suspeitos de sempre

Newton Carlos

O czar do antiterrorismo nos Estados Unidos, Francis Taylor, afirmou no Congresso americano que a fronteira tripartite (Brasil, Argentina e Paraguai) é centro internacional de financiamento de grupos terroristas. Sem falar em falsificação de documentos e tráfico de armas e drogas. O empório comercial está cheio de árabes e a associação entre ''terroristas'' e ''árabes'' nos alcança, embora a América Latina tenha uma variedade própria de terrorismos sem turbantes.

A Latin American Newsletter, editada em Londres, disse o seguinte: o Paraguai tratou de capturar a parte do leão, na América Latina, das atenções devotadas por americanos enraivecidos a países que se pusessem atrás de ''vinculações terroristas''. Uma das operações espetaculosas, com policiais encapuzados, prendeu 16 acusados de ''conexões árabes''. O dever de casa feito pela segurança paraguaia, cuja ficha é mais do que conhecida, foi suficiente, segundo a publicação londrina, para que Taylor caísse em cima da tríplice fronteira em depoimento no Congresso.

No picadeiro principal do circo montado pelo Paraguai estão dois jovens libaneses presos em Ciudad del Leste, onde se concentra a maioria da comunidade árabe paraguaia. A polícia fartou-se triunfante com comprovantes de envios de dinheiro para o Líbano, onde reside o grupo fundamentalista Hisbolá. A inteligência em Assunção juntou alhos com bugalhos e concluiu que nesse mato tem cachorro. Ou ''vinculações terroristas'', já que os dois também guardariam vídeos e literatura de ''grupos extremistas islâmicos''.

As acusações iniciais se limitavam à posse de documentos falsos, um passaporte ''suspeito'', embora emitido pelo consulado do Paraguai no Panamá. Em seguida apareceram as remessas de 50 mil dólares para o Líbano. Azar dos remetentes, é o pais do Hisbolá. Os advogados de ambos insistiam em que não há nada de sinistro em pagar trocas comerciais, enquanto Raúl Vera, presidente do Banco Central, num golpe de ''suspense'', anunciava o lançamento de investigações ''a fundo'', por parte de várias agências do governo, das transferências de dinheiro feitas em Ciudad del Leste.

Lavagem de dinheiro é o que não falta no Paraguai. Investigações confidenciais jogaram o assunto no vale das sombras, mas o próprio cabeça do grupo, na versão do Paraguai, decidiu defender-se publicamente. Mora em Foz do Iguaçu e seu nome é Assad Ahamad Barakat. Em entrevista ao ABC Color, de Assunção, confirmou que a dupla enjaulada trabalha para ele, em empreitadas comerciais, e negou que tenha alguma coisa a ver com terrorismo, embora não esconda simpatias pelo Hisbolá e admita contribuições humanitárias. Não é nenhum criminoso.

Até o momento, pelo menos, a polícia federal brasileira não o incomodou. Dos 16 presos por encapuzados, todos de origem árabe, três foram soltos e os 13 restantes são processados por ''irregularidades imigratórias''. Um dos peixes gordos visados pelos caçadores paraguaios de ''vinculações terroristas'' é o comerciante Armando Kalil Chams, espécie de líder da comunidade árabe de Ciudad del Leste. Chams viajou para fora do Paraguai se dizendo ameaçado. Seus advogados iriam pedir um habeas-corpus preventivo.

Teve o escritório invadido por agentes de um ''secretariado antiterrorista''. A versão de Chams é outra. São os mesmos policiais que administram uma ''rede de proteção'' e tomam dinheiro de residentes árabes. Instalou-se na América Latina uma caçada a ''árabes terroristas'', de acordo com anotações da Latin American Newsletter. Se não pega terroristas, pelo menos promove uma colheita de imigrantes ilegais. Um jordaniano foi preso no Aeroporto de Lima com passaporte falso.

Ninguém menos do que o presidente Alejandro Toledo carimbou-o de ''suspeito de envolvimento nos atentados terroristas nos Estados Unidos e participação numa rede latino-americana''. Aconteceu a 12 de setembro. Nunca mais se falou no assunto. A presidenta do Panamá nega reiteradamente que os Estados Unidos queiram recolocar tropas na Zona do Canal. Onde há fumaça há fogo, escreveu um jornal panamenho.

O Pentágono quer criar um Comando America, ainda mais abrangente do que o velho Comando Sul, cuja ''escola'' (do Panamá ela se transferiu para o Geórgia) treinou oficiais latino-americanos na guerra contra o comunismo. Um dos alunos foi Pinochet. Haverá pinochets da guerra contra o terrorismo?

Newton Carlos é jornalista

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