Você tem brincado com seu filho? Para muitos, a pergunta pode soar absurda; para outros, um tanto ''psicanalítica'', mas o fato é que ela questiona o quanto os pais atualmente participam de uma das atividades mais importantes na vida de uma criança: a brincadeira. Brincar é coisa séria e quanto mais os adultos se derem conta e participarem disso, melhor estarão contribuindo para o desenvolvimento de seus filhos.
O ritmo frenético que tem o cotidiano dos casais hoje em dia, a concorrência profissional ''tanto para os homens quanto para as mulheres'', o pouco tempo para cuidar da casa, para dedicar-se a si mesmo e, não raro, à prole... Será que, com todas as pressões do mercado de trabalho, o tempo de convivência entre pais e filhos não está demasiadamente limitado? Com todos esses fatores e mais o comodismo que a televisão, já chamada de ''babá eletrônica'', oferece, a tendência é que haja mesmo certa falta de ''intimidade'' para que pais e filhos brinquem juntos.
Talvez a maioria das pessoas diga que as crianças brincam porque gostam, o que é indiscutível. Porém, mais do que isso, elas brincam também para dominar angústias e elaborar uma série de situações internas que muitas vezes são dolorosas. O trabalho da criança é a brincadeira, e através desta ela exterioriza seus medos. É uma forma de organizar-se emocionalmente, um ''treinamento'' para iniciar relações e contatos sociais. Prova disso é que, conforme ela cresce e se desenvolve emocionalmente, mudam os jogos e as brincadeiras. É um ''pular de fases'', de acordo com a faixa etária e as experiências vivenciadas.
No início da vida a criança brinca sozinha ou com a mãe, em quem o seu interesse se concentra quase que exclusivamente. Em torno dos quatro meses, ela inicia a sua atividade lúdica. Uma das brincadeiras que ocorrem nessa fase é a de esconder, que tem como objetivo fingir o afastamento da mãe ou de outra pessoa próxima. Na segunda metade do primeiro ano de vida, os bebês se interessam por brincadeiras de pôr e tirar, unir e separar. Por volta dos dois anos, distraem-se com recipientes, com os quais transportam objetos de um lugar para o outro.
A partir dos três anos começam a surgir diferenças entre os interesses de meninos e de meninas. Enquanto eles atraem-se muito por carros, jogos de conquistas e armas, elas se interessam por bonecas, animais e jogos mais tranqüilos, entretendo-se com conversas e brincadeiras de ''casinha''. Com a alfabetização, as letras e os números convertem-se em jogos, ''surgem, assim, as brincadeiras relacionadas à capacidade intelectual, à curiosidade e ao conhecimento. Brincando a criança descobre o mundo, adquire coordenação motora, autoconfiança, concentração e começa a se relacionar com seus pais e amigos. Com a chegada da adolescência, os jogos são gradativamente substituídos pela conquista amorosa. Engana-se quem pensa que as brincadeiras param por aí: já adulto, o indivíduo continua brincando. Ao longo da vida, ele brinca através do humor, das palavras, das inflexões de voz.
A brincadeira é universal e faz parte da saúde mental. Muitas vezes a ausência de participação dos pais nesse processo é justificada com falta de habilidade, falta de ''jeito'' para brincar (como se houvesse algum mistério ou alguma fórmula para isso). Há também os que simplesmente não conseguem estar sozinhos com seus filhos sem uma babá a ''tiracolo''.
Brincar facilita o crescimento e, por isso, é essencial que os adultos abram espaço para as brincadeiras infantis, ajudando a criança a desenvolver suas potencialidades. Crianças tolhidas nesse sentido podem transformar-se em adultos com dificuldades motoras e emocionais, pouco curiosos, com medo de enfrentar desafios e aprisionados num mundo já conhecido e por isso muito mais cômodo.
O mais importante no relacionamento entre pais e filhos é a qualidade da relação. Administrar o tempo, esquecer as preocupações e a ''falta de jeito'' e reservar algumas horas do dia, mesmo que sejam poucas, para brincar com suas crianças é fundamental para aprimorar a relação com elas e ajudar no seu desenvolvimento. Certamente, pais que nunca o fizeram se surpreenderão com esses momentos, cheios de aprendizado e descobertas.
Márcia Rodrigues Ganime é integrante da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro