Com o início do curso sobre arquitetura e o ambiente do século 20, programado para os primeiros dias de outubro pela Universidade Cândido Mendes e a Fundação Oscar Niemeyer, cabe explicar seus objetivos. Uma das idéias que defendemos é dar ao ensino um sentido mais justo e abrangente. Não basta aos estudantes, ao nosso ver - e é o que a eles sempre falamos -, saírem das faculdades como profissionais. O importante também é estarem aptos a atuar, dignamente, nesse estranho e injusto mundo que os espera.
Daí a decisão de incluir nos programas e, para começar, nesse curso com ênfase na arquitetura, uma série de palestras paralelas onde os problemas das artes, ciência, historia, filosofia e política estejam presentes. Com a colaboração de figuras da maior expressão na área cultural do país, como Emir Sader, Ferreira Gullar, Italo Campofiorito, Luis Alberto de Oliveira, Vitor Arruda e Wanderlei Guilherme dos Santos.
Com relação às palestras sobre arquitetura e engenharia, José Carlos Sussekind e eu pretendemos baseá-las na arquitetura de hoje, na vitória do concreto armado que ela tão bem reclama e nesse mundo de formas novas, da audácia, da beleza e da fantasia, que um passado obsoleto não poderia exprimir.
Da engenharia se incumbirá o meu colega Sussekind. É a ele que recorro e provoco com minhas fantasias de arquiteto, confiante no seu enorme talento.
É claro que muitos projetos vão ser analisados, demonstrando as razões da arquitetura. Um deles, por exemplo, explicando o uso da curva que tanto nos atrai e o concreto sugere. Dias atrás, num projeto em elaboração, tínhamos de cobrir uma área circular com 60 metros de diâmetro. Não queríamos uma solução plana, reta, com vigas de três metros de altura, e adotamos uma cúpula, uma grande cúpula que Sussekind calculou, sem nervuras, fina, finíssima, com apenas 20cm de seção.
E falaremos, com certeza, da Catedral de Brasília, uma obra que muitos pensam ter sido difícil de realizar. Nada disso. Concretamos as colunas do chão e depois suspendemos, em grupo, criando o espetáculo arquitetural.
A última catedral que desenhei e cuja foto acompanha este texto, pode também despertar os mesmos equívocos. Mas como será fácil construí-la! Primeiro, a cúpula com 40 metros de diâmetro, suspensa no ar pelos três apoios projetados. Embaixo dela, a nave, e a estrutura a subir dando á arquitetura o sentido religioso desejado.
Lembro os trabalhos que fiz, as formas tão diferentes que desenhei. Recordo Brasília e em tranqüilizo, certo de que os que a visitam poderão gostar ou não dos seus palácios, mas nunca dizer terem visto antes coisa parecida. E isso é arquitetura, a invenção arquitetural que procuro.
É evidente que, nas conversas que vamos ter durante o curso programado, alguns princípios que seguimos serão sempre lembrados. Não acreditamos, por exemplo, numa arquitetura ideal e única que um grupo de pouca imaginação sugeriu anos atrás. Seria a vitória da repetição e da monotonia. Para nós, cada arquiteto, se possível, deve ter sua arquitetura, e a importância da intuição, muitas vezes desprezada, aparece e se impõe.
É o que mais longe - muito mais longe -, no século XVII, descartes antecipava: ''...assim que a idade me permitiu sair da sujeição de meus preceptores, eu abandonei inteiramente o estudo das letras. E, decidindo não procurar mais nenhuma outra ciência senão aquela que poderia encontrar em mim próprio, ou no grande livro do mundo, empreguei o resto da minha juventude a viajar, (...) a me experimentar nos encontros que a sorte me propunha''.
Vamos defender a intuição, a liberdade de concepção. É o que procuro fazer com a minha arquitetura.
Oscar Niemeyer é arquiteto