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Morales promete erradicar cocaína
Candidato cocaleiro das eleições presidenciais bolivianas defende cultivo da folha de coca, mas condena tráfico
[19/DEZ/2005]
LA PAZ -
Favorito nas eleições presidenciais na Bolívia, o líder cocaleiro Evo Morales prometeu nacionalizar todos os recursos naturais de seu país, incluindo o gás, e erradicar o tráfico de cocaína no país caso seja eleito. As declarações foram feitas ontem, no dia em que os bolivianos foram às urnas escolher o sucessor do presidente Eduardo Rodríguez.
- A coca deu origem esse movimento dos povos, a esse instrumento político. A defesa dessa folha levantou o povo organizado. Haverá cocaína zero, narcotráfico zero, mas não coca zero - afirmou o candidato, cercado por produtores de coca em uma escola de seu reduto eleitoral do Chapare boliviano.
A posição de Morales representa um alívio para o governo americano, que observa com atenção redobrada o desenrolar das eleições bolivianas. Washington vê em Morales uma pedra no sapato de seu plano de luta antidrogas e não aprova seus laços com o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e o líder cubano, Fidel Castro.
Ontem, no entanto, o candidato cocaleiro renovou suas provocações aos EUA. Pediu ao governo do EUA que respeite a ''decisão soberana do povo'' nas eleições e criticou o presidente George W. Bush por manter tropas no Iraque:
- Se ele defende a vida e se considera um democrata, deve retirar as tropas do Iraque e acabar com todas as bases militares da América Latina, pois não estamos em tempos de guerra - afirmou Morales, que se disse disposto a manter relações de respeito mútuo com o governo americano, ''mas sem relações de subordinação ou de submissão''.
O líder cocaleiro, candidato do partido Movimento ao Socialismo (MAS), lidera as pesquisas de intenções de voto na Bolívia. Em uma delas, realizada na última semana da campanha eleitoral, Morales aparecia com 34,2% das intenções de voto. Em uma outra, com 36%. O ex-presidente Jorge 'Tuto' Quiroga, do partido Poder Democrático e Social (Podemos), aparecia em 29,2% e 28%, respectivamente.
Mesmo com a vantagem estatística, a vitória do cocaleiro tem um complicador. A legislação boliviana determina que, se nenhum dos oito candidatos à presidência conseguir 50% e mais um dos votos válidos, o Congresso é quem vai escolher o presidente entre os dois mais votados. Neste caso, a vantagem é de Quiroga, que deve contar com mais apoio entre os legisladores, que também foram escolhidos ontem.
Se confirmado o prognóstico, será o Congresso - com 27 senadores e 130 deputados eleitos nesta jornada - o responsável por decidir quem será o novo presidente do país. Uma vitória de Morales poderá gerar uma mudança radical na Bolívia, já que ele promove a liberdade do cultivo de coca - uma planta medicinal que é base da cocaína - e um controle férreos do Estado sobre as multinacionais que gerenciam os recursos naturais do país.
Depois de votar, Morales disse ainda que ''a riqueza natural no governo do MAS irá voltar às mãos do Estado''. Hoje as reservas de gás natural da Bolívia, estimadas em 108 bilhões de metros cúbicos, são exploradas por empresas estrangeiras. As reservas do país só são superadas na América do Sul pelas da Venezuela. Porém, o candidato não informou qual será a extensão do embargo que poderá impor às empresas multinacionais.
Cerca de 26 mil militares e 24 mil policiais foram convocados ontem para fazer a segurança das 121.119 mesas eleitorais dispostas para o pleito. Mais de 200 observadores internacionais supervisionarão o pleito. Só a Organização dos Estados Americanos (OEA) enviou 166 observadores. Quiroga, que votou no colégio de Santa Rosa, no bairro residencial da Flórida, disse que, se vencer, haverá uma mudança com estabilidade no país e não ''um salto no escuro'', em referência a seu principal oponente.
- Votei com confiança, vamos vencer. Temos o projeto com maior presença nacional - afirmou p candidato da formação Podemos, bronzeado depois de passar o sábado escalando o pico Huayna Potosí.
A votação transcorreu em calma nas seções eleitorais do país, formado por um território de um milhão de quilômetros quadrados das planícies tropicais do leste até o planalto de 4.000 metros de altura. A votação também vai escolher, pela primeira vez na história do país, os governadores dos nove departamentos.
Além de Morales e de Quiroga, disputam o cargo o empresário do ramo de cimento Samuel Doria Medina, da Unidade Nacional (UM); Gildo Angulo, da Nova Força Republicana (NFR); Felipe Quispe, do Movimento Indígena Pachakuti (MIP); Michiaki Nagatani, do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR); Néstor García, da União Social de Trabalhadores da Bolívia (USTB), e Palácio do Eliseu Rodríguez, da Frente Patriótica Agropecuária da Bolívia (Frepab).
Durante sua visita a sua seção eleitoral, Morales também criticou o Chile. Ele disse que se o país vizinho ''quer diplomacia'' deve dar à Bolívia acesso ao mar. Segundo ele, as más relações entre as duas nações se devem à recusa de Santiago em ceder uma passagem ao Oceano Pacífico que seria importante para ampliar as relações comerciais internacionais bolivianas. Daqui a duas semanas, La Paz e Santiago negociarão uma ampliação do Acordo de Complemetação Econômica, que rege as relações comerciais entre os dois países.
- Quero expressar o que sente um povo. A maioria dos bolivianos não está de acordo com a implementação das relações comerciais com o Chile antes de resolvermos a questão marítima - desafiou.
A demanda boliviana é antiga, já que a passagem marítima foi perdida para o Chile em na guerra entre os dois países, em meados do século XIX. As nações têm contato diplomático rompido desde 1978.
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