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Os bastidores da Minustah

Soldado critica ofensivas da missão de estabilização

Sheila Machado

''A Minustah não é uma missão de paz. O contingente brasileiro faz papel de polícia no Haiti''. Quem critica não é um ativista dos direitos humanos ou um político haitiano, mas um soldado brasileiro da própria missão da ONU de estabilização do país caribenho. Segundo o recruta, que falou ao JB em condição de anonimato, o treinamento das tropas não as prepara para o que vão enfrentar em Porto Príncipe.

- Fomos exaustivamente orientados sobre as dificuldades que teríamos, a diferença de cultura, a distância da família. Mas o que se informa é que faríamos a segurança de autoridades e impedir a ação de alguns grupos de saqueadores. Ninguém nos avisou que teríamos que invadir favela e trocar tiro com bandido. Isso não é manutenção de paz - afirma.

O Exército brasileiro discorda:

''Como prova de que a preparação da tropa evidenciou o provável emprego em ações contra gangues armadas e em áreas pobres, os militares realizaram exercícios em favelas no estado do Rio de Janeiro (em Tavares Bastos, em Rio das Pedras e em Paracambi), onde foram simuladas, inclusive, troca de tiros, com a finalidade de ambientar a tropa em incidentes semelhantes aos quais poderia se defrontar no Haiti'', escreveu o coronel Carlos Barcellos, respondendo em nome do batalhão brasileiro.

O oficial ressalta ainda que foram realizadas ''cerca de 220 horas de instrução de técnicas militares de combate urbano e 300 horas de instrução de tiro''.

- Além disso, o capítulo 7 do mandato da ONU no Haiti prevê o uso da força quando necessária para garantir o cumprimento da missão ou quando alguém estiver ameaçando a tropa ou a segurança do país - explica, de Porto Príncipe, o general Urano Barcellar, que recentemente assumiu o comando militar da Minustah, em substituição ao general Heleno Ribeiro.

Esta, entretanto, não é a única reclamação do capacete-azul. Segundo ele, autoridades e recrutas têm tratamento muito diferenciado:

- É proibida a presença de mulheres na base. Mas elas entraram em duas festas que aconteceram para os oficiais. Uma teve um grupo de dançarinas haitianas. Na outra, enfermeiras do contingente argentino da Minustah não só foram convidadas como dormiram na base brasileira. Detalhe: não há alojamento feminino.

O Exército confirma a ocorrência de ambas as festas. Mas explica que, primeiramente, não há proibição de presença feminina na instalação militar.

''Até porque as Nações Unidas contam com mulheres em atividade operacional no Haiti. O batalhão brasileiro tem duas intérpretes, como contratadas da ONU, além de haitianas que prestam serviço de limpeza na base'', lembra Barcellos.

Segundo o oficial, com relação à apresentação de dançarinas, ''na recepção ao nosso contingente e na cerimônia de passagem de comando foram realizados shows de um grupo folclórico haitiano, onde homens e mulheres usavam seus trajes típicos do Haiti''. O episódio das convidadas portenhas também tem explicação:

''A presença de médicos e enfermeiros argentinos (homens e mulheres) na base foi um gesto de agradecimento aos colegas de missão, que realizaram atendimento médico-odontológico à população da área de operações do Brasil. E também como reconhecimento ao esforço para salvar a vida de um tenente brasileiro, seriamente ferido em uma operação militar''.

De acordo com Barcellos, ao final da recepção, ''realizada em local aberto, todos os convidados/homenageados (homens e mulheres) retornaram para a base argentina''.

O soldado critica ainda o fato de o batalhão não poder ter contato amigável direto com os haitianos e não poder fotografar ou filmar dentro da base. Para o Exército, as ''restrições'' têm razão de ser.

''Fotos de pessoas detidas, feridas, transeuntes ou em cenas de humilhante estado de pobreza poderiam trazer constrangimentos desnecessários para haitianos, ou gerar ações judiciais contra a tropa. Na base do Batalhão, a restrição é dirigida a locais sensíveis, tais como depósitos de armamentos e munições, ou de outros materiais cujo controle é essencial, e às áreas relacionadas com a segurança das instalações. Tal procedimento é comum a qualquer unidade militar do mundo'', ressalta Barcellos.


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[11/SET/2005]


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