EUA gastam quase 60% da verba de reconstrução sem reduzir miséria e violência no país, enquanto guerrilha acua governo
BAGDÁ -
Os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003 para acabar com um regime violento e com a miséria na qual viviam os iraquianos. Dois anos depois, quase 40% dos US$ 21 bilhões destinados à reconstrução do país foram gastos e a situação consegue ser pior do que antes. Além de não ter recuperado índices mínimos de qualidade de vida, a população enfrenta uma rotina de horror, com a guerrilha mostrando a cada dia, que o governo eleito em fevereiro, com o beneplácito dos EUA, está acuado. Muitos dos projetos de infra-estrutura básica (energia e tratamento de água e esgoto) estão com cronogramas atrasados. A situação é mais grave no Norte, onde os conflitos são intensos, o que cria um círculo vicioso que os americanos não conseguem evitar: a guerrilha atrasa os projetos, e a diferença social que isso gera acirra os confrontos.
- Os iraquianos vêem a Zona Verde com ar-condicionado e centenas de homens para a segurança e eles não têm água - diz o engenheiro Haider Albalhary a oficiais que o visitaram recentemente - Há seis meses, não tínhamos energia. Nós dissemos: ok. Um ano, dois anos e, agora, três. Chega. Meu amigo, três anos é tempo demais sem isso - completa.
Da verba total, mais de 20% são para segurança nos canteiros, guarnecido por mercenários principalmente americanos. Como ficam distantes das bases militares, os engenheiros acabam tendo de usar guardas para tudo.
- Se tivéssemos unidades militares para acompanhar essas pessoas, poderíamos ter mais profissionais trabalhando lá - lamenta o coronel Rober Gerber, chefe dos engenheiros do Exército na região.
Ontem, representantes de 60 países se reuniram na Jordânia para discutir a reconstrução. O ministro do Planejamento jordaniano, Barham Salih, lamentou que o Iraque não tenha o controle da definição das prioridades na reconstrução. Também reclamou do atraso nos cronogramas.
- As aspirações do povo por uma vida melhor não podem mais ser adiadas - disse, acrescentando que ''é preciso que as prioridades sejam estabelecidas por iraquianos com ligação com o país'' - alusão a integrantes do novo governo, apoiado pelos EUA, que vivem há anos no exílio. O ministro também disse que o vizinho precisa desesperadamente de energia, água limpa e estações de tratamento de esgoto.
Os iraquianos não são os únicos impacientes. Num canteiro de obras do Sul, um americano indignado rasgou um cartaz no qual se lia que o projeto era presente de Washington. Alguns críticos dizem que os EUA já perderam a oportunidade de causar boa impressão na população, sobretudo diante da carnificina diária dos atentados-suicidas, embora até os mais céticos reconheçam progressos. No extremo Sul e no extremo Norte, onde os xiitas e curdos, respectivamente, elegeram líderes para altos cargos do novo governo, a situação é bastante diferente.
Pelos cálculos de Bagdá, mais de 3 mil escolas por todo o país já foram reformadas desde que o programa foi iniciado. Cerca de 40 delas, foram erguidas no Sul, no lugar de cabanas de barro onde as crianças costumavam estudar. Mas três estações de tratamento de água na mesma região, que podem atender a mais de meio milhão de pessoas, incluindo um enorme projeto perto de Nasiryiah, ainda estão no papel. Funcionários do governo igualmente lembram que mais de 70 projetos de eletricidade foram desenvolvidos, mas um aumento na demanda fez a energia elétrica menos disponível do que antes da invasão de 2003. Três usinas de energia, também ainda no papel, deveriam ser construídas em 2006, para beneficiar 400 mil famílias.
Muitos colocam as esperanças de desenvolvimento nos imensos campos de petróleo. Mas as negociações estão paralisadas por conta das discussões legais envolvendo irregularidades cometidas pela KBR, subsidiária da gigante petrolífera americana Halliburton.
Trabalham hoje na reconstrução pelo menos mil civis americanos. Mas a maior parte da mão-de-obra é local: 200 mil iraquianos estão empregados para injetar dinheiro na economia local como um programa de Washington. Isso não quer dizer que há avanços: nos últimos meses têm sido gastos U$ 178 milhões por semana, mas o progresso é irregular e canteiros de obras importantes estão a meses da finalização, como o aeroporto de Basra e do porto de Umm Qasr.
A capital e sede do governo é o retrato da situação: um atentado em 19 de junho acabou com parte do fornecimento de água. Nas ruas, os moradores dizem que a vida piorou depois de Saddam. Quase não há energia e filas para comprar gasolina são imensas apesar das reservas gigantescas. Empregos como os 200 mil citados pelo governo como parte do apoio americano são igualmente raros - com exceção do de policial, justamente o alvo preferido dos guerrilheiros.