WASHINGTON -
Movido pelo clima de medo em relação ao terror, o governo americano vem atingindo marcas históricas em relação à quantidade de documentos confidenciais produzidos por sua burocracia. Em quatro anos o volume dobrou. Devido a algumas medidas, departamentos federais chegam a classificar como secretos até 125 documentos por minuto ao mesmo tempo em que novas categorias de papéis semi-secretos são criadas com especificações vagas como ''informação sensível de segurança''.
Só no ano passado 15,6 milhões de documentos foram considerados secretos, um recorde que representa quase o dobro do número registrado em 2001, de acordo com o escritório federal de Segurança da Informação. Enquanto isso o processo de liberação de documentos, que trouxe à luz milhões de papéis históricos nos anos 90, sofreu uma diminuição considerável, passando de 204 milhões de páginas em 1997 para apenas 28 milhões em 2004.
A crescente censura - e o conseqüente crescimento dos gastos oficiais estimados em US$ 7,2 bilhões só no ano passado - vem gerando protestos de um grupo de políticos e ativistas que cresce cada vez mais, incluindo congressistas republicanos, líderes da comissão independente que estuda os ataques de 11 de setembro e até mesmo de altos funcionários do departamento federal responsável pela classificação dos documentos oficiais.
O crescimento no número de documentos considerados confidenciais começou depois dos ataques de 2001, quando o governo decidiu restringir o acesso a documentos que eventualmente poderiam conter informações sobre supostas vulnerabilidades do país e que poderiam cair nas mãos de membros da Al-Qaeda. E essa preocupação continua na ordem do dia. Na semana passada o ministério da Saúde e do Bem-Estar Social tentou evitar a publicação de um estudo científico sobre leite envenenado que poderia ser, em tese, um ''mapa da mina para o terror''.
Mas há quem acredite que o armazenamento excessivo de informações pode virar um tremendo ''tiro pela culatra''. Thomas H. Kean, presidente da Comissão do 11/09 e ex-governador de Nova Jersey, disse que as falhas de segurança em relação aos ataques de 2001 não tiveram origem em informações secretas, mas nas barreiras de comunicação entre os órgãos públicos.
- Me surpreendi com algumas informações classificadas como secretas, mas que na verdade já haviam sido publicadas em jornais. O melhor aliado contra o terrorismo é uma opinião pública bem informada - acredita Kean, que, no entanto, disse não poder, legalmente, falar sobre casos de informações classificadas, desnecessariamente, como secretas.