Comando militar americano absolve marine filmado quando fuzilava iraquiano ferido dentro de uma mesquita em Faluja
WASHINGTON -
O Exército dos Estados Unidos inocentou o marine filmado ao disparar contra um iraquiano ferido e desarmado em uma mesquita, durante a ofensiva de Faluja em 2004. A cena causou repulsa em todo o mundo. Segundo comunicado endossado pelo comandante da 1ª Divisão do Corpo de Marines, general Richard Natonski, o cabo não pode enfrentar uma corte marcial.
''Os atos foram coerentes com as regras para abrir fogo, a lei de conflitos armados e o direito à defesa própria'', escreveu Natonski. ''Havia razões para crer que havia ameaça''.
As forças americanas que combatiam os rebeldes em Faluja, no dia 13 de novembro do ano passado, tinham sido alertadas, segundo uma informação não divulgada na época, de que o inimigo poderia usar cadáveres e corpos envoltos em trapos para atrair soldados e matá-los, de acordo com a rede de tevê NBC. Nas imagens que correram mundo, o iraquiano, deitado ao lado de um suposto rebelde morto, mal se mexeu antes de ser atingido. O incidente foi filmado por um cinegrafista da NBC. Em algumas emissoras americanas, a identidade dos militares foi apagada no vídeo. Nas européias, no entanto, os nomes eram legíveis nas fardas.
O marine acusado foi flagrado quando gritava palavrões e dizia que o iraquiano ferido estava se fingindo de morto. Um segundo depois, fez mira e disparou um tiro à queima roupa na cabeça do homem. Enquanto o militar se afastava, dizendo ''agora sim, ele está morto'', o câmera mostrava a reação dos outros soldados. A execução filmada foi mais um motivo de escândalo para os EUA, cujos militares são acusados de abusos e torturas contra presos na cadeia de Abu Ghraib, em Bagdá. O Corpo de Marines assegura que os investigadores assistiram ao vídeo várias vezes, entrevistaram mais de 22 marines que participaram da operação e fizeram testes de balística.
Segundo a investigação, os três iraquianos encontrados mortos haviam sido feridos no dia anterior, num conflito com marines, que os desarmaram e o deixaram no local. No dia seguinte, um segundo esquadrão voltou ao receber a informação que o local fora novamente ocupado. De acordo com a investigação, o mesmo cabo ''disparou contra os três iraquianos feridos''. Foi encontrado também no local um quarto corpo de uma vítima que morreu baleada, mas as balas não pertenciam à arma do cabo.
''A fita melhorada do tiroteio apóia a versão do cabo, segundo a qual o ferido tentava ocultar uma arma na mão esquerda'', diz o documento. A versão do comando, no entanto, não cita a presença nas cenas, exibidas na época, de um quinto iraquiano, encontrado vivo, mas ferido deitado sob cobertores a poucos metros do cabo. Ele certamente assistiu ao fato.
Combinada com decisão de não responsabilizar nenhum dos altos comandantes americanos no Iraque pelo episódio de Abu Ghraib - com exceção da chefe da cadeia, a general Janes Karpinsky - o anúncio da inocência do marine no espisódio de Faluja deve inflamar ainda mais a insurgência no Iraque. A guerrilha voltou a atacar alvos da nova polícia iraquiana, com atentados-suicidas a postos de recrutamento deixando mais 24 mortos ontem em Bagdá. Na quarta-feira, mais de 60 iraquianos, principalmente curdos, já tinham perdido a vida em ataques da guerrilha liderada pelo jordaniano Abu Musab Al Zarqawi.
O chefe da Al Qaeda no país, que escapou de um cerco recente, estaria com sérios problemas de saúde. Além de dados de um laptop apreendido que pertenceria a ele - no qual havia indícios de que estaria ferido no estômago e necessitando de altas doses de analgésicos - a Inteligência americana descobriu que o jordaniano procurou socorro em um hospital. O guerrilheiro e dois de seus homens foram atendidos recentemente de ferimentos a bala em um ambulatório na cidade de Ramadi, província de Al Anbar, centro das ações da resistência.