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Legado político está em jogo na sucessão

Alemão Joseph Ratzinger é candidato forte, mas tradição italiana pode vencer

A disputa pela sucessão papal substituiu as conversas de bastidores pela deliberação oficial de 120 cardeais que, trancados, escolherão em até 20 dias o novo líder da Igreja. Quase 100 deles foram escolhidos por João Paulo II e, de acordo com especialistas no Vaticano, mostram o conservadorismo sobre a sucessão. De acordo com uma lei adotada em 1975, por Paulo VI, todos os cardeais que participarão do Conclave devem ter menos de 80 anos. Ao entrar na Capela Sistina para o encontro, os integrantes devem fazer um juramento de segredo. Se quebrado, o responsável será imediatamente excomungado.

A capela é rastreada para detectar possíveis grampos e as janelas e portas são trancadas. No dia seguinte, depois da missa, começa a votação. Embora, durante séculos, apenas cardeais foram eleitos, qualquer homem adulto católico é papabile. No passado, o papa precisava de dois terços dos votos. Em 1996, João Paulo II mudou a regra. Se o número não for atingido em até 13 dias, a maioria absoluta (metade mais um) é suficiente. O mundo conhecerá a decisão quando o deão dos cardeais gritar, no terraço: habemus papam! (''nós temos papa!''). O novo Santo Padre aparecerá e benzerá a multidão.

Oficialmente, a campanha para a sucessão é proibida, já que os cardeais devem representar a vontade de Deus, guiados pelo Espírito Santo. Mas as regras não evitaram a especulação. O arcebispo de Chicago, Francis George, chegou a dizer que seria ''irresponsável'' não pensar em um novo papa, ao menos ''no coração e nas orações''.

Karol Wojtyla foi o primeiro pontífice não italiano em 455 anos e muitos crêem que é hora de voltar à tradição. Mas uma ''facção italiana'' de padres influentes estaria sugerindo o cardeal alemão Joseph Ratzinger. Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé e cardeal mais antigo na Santa Sé, ele fará 78 anos em 16 de abril e era próximo a João Paulo II nos níveis pessoal e teológico. Ratzinger ficou mais conhecido pelos fiéis ao presidir a última Vigília da Páscoa em Roma, no lugar do Santo Padre. Mas analistas do Vaticano identificam uma crítica à tendência no artigo de Vittorio Messori, confidente do Papa, no jornal Corriera della Sera. Messori atacou o teólogo Hans Kueng citando a ''cultura germânica, na qual o racismo sempre encontrou um caminho''. ''Um antigo ditado germânico diz que os poloneses não são humanos. Por isso, Kueng nunca aceitaria um como Senhor e Mestre'', escreveu Messori.

Kueng é suíço, mas leciona na Universidade Tuebingen, na Alemanha. Ele não é licenciado pela Igreja Católica mas pelo estado de Baden-Wuerttemberg. Os observadores acreditam que o alvo de Messori não era Kueng, que na mesma edição do jornal considerou João Paulo II um papa falido, pelas suas posições conservadoras que frearam a solução de problemas como a opressão contra mulheres, controle da natalidade e diálogo com outras religiões. O italiano não abordou nenhuma das questões de Kueng e apenas o usou para atacar os alemães e sua cultura, condenando-a por ter espalhado o agora ''moribundo'' protestantismo. Mas Ratzinger tem chances de ser papa.

Os cardeais podem achar que ele seria a melhor escolha para completar os objetivos de João Paulo II, com quem conversava num alemão perfeito. E Ratzinger pode ser o homem capaz de trazer ordem à Cúria Papal. A maior força de João Paulo II era ser um apóstolo do mundo, um missionário global, mas sua capacidade administrativa foi sempre colocada em questão. O próximo papa terá que resolver essa questão.

Ratzinger não é o único papabile. O outro candidato seria o cardeal Christoph Schoenborn, arcebispo de Viena e também sintonizado com a teologia do Santo Padre. Além de ser um bom administrador, Schoenborn é conhecedor da ortodoxia do Leste europeu e tem boas relações com seus líderes. João Paulo II manifestou seu desejo de reconciliação com esse braço do Cristianismo, ''fazendo com que a Igreja respire de novo com os dois pulmões'', como dizia. Com 60 anos, Schoenborn também é o candidato mais novo.

Entre os italianos, a opção mais provável é o cardeal Dionigi Tettamanzi, arcebispo de Milão. Com 70 anos, é considerado um pastor e intelectual e representaria a continuidade de João Paulo II, mas com novas idéias. Tem o apoio de dois votantes italianos poderosos - o cardeal Giovanni Battista Re, líder da congregação de bispos e Camillo Ruini, chefe da Igreja italiana. Candidato natural à sucessão, o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Angelo Sodano, 77 anos, pode sofrer com a proximidade com o papa.

O outro italiano na disputa é o cardeal de Veneza, Angelo Scola, 63 anos, considerado moderado. Ele tem o apoio do Opus Dei, grupo laico poderoso que tinha o apreço de João Paulo II, recebendo em 1982 o status de ''prelazia pessoal'', que deu à organização independência sobre os cardeais locais.

Nos últimos quatro anos, dois integrantes da Opus Dei se tornaram cardeais: Juan Luis Cipriani, do Peru, e Julián Herranz, espanhol e presidente do Conselho Pontífice para Textos Legislativos. Joaquin Navarro-Valls, porta-voz de João Paulo II, também é outro integrante do grupo. A maior influência da Opus Dei pode estar em Eduardo Martinez Somalo. O espanhol é o cardeal-camerlengo, chefe do Colégio Cardenalício e responsável por determinar a morte do papa, preparar o funeral, o Conclave, e administrar os bens e propriedades da Santa Sé até a sucessão.

Os latino-americanos também têm seus candidatos. O colombiano Darío Castrillón Hoyos, de 75 anos, chefe da congregação para o clero, e o arcebispo de Tegucigalpa, o hondurenho Oscar Rodriguez Madariaga, de 62 anos, figuram entre os chamados ''papáveis''. Por fora correm o brasileiro Claudio Hummes, de 70 anos, arcebispo de São Paulo, e o argentino Jorge Mario Bergoglio, de 67 anos, arcebispo de Buenos Aires. Outro nome bem quisto é o cardeal negro Francis Arinze, de 72 anos, líder da Congregação para o Culto Divino.


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[03/ABR/2005]


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