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Apatia desumana

Limpeza étnica em Darfur mostra que comunidade internacional ainda não sabe lidar com crises humanitárias

Arthur Ituassu

''Uma menina e sua avó foram ao mercado. Quando voltavam para a casa, tiveram que correr dos Janjaweed (demônios sobre cavalos). A menina foi pega mas resistiu. Eles quebraram os dentes dela e a largaram na rua. Três dias depois a polícia veio até a nossa vila. Disseram que era uma região segura e que não havia necessidade de que nós tivéssemos armas. Eles revistaram tudo e levaram todas as nossas armas. Disseram para não termos medo. Na madrugada seguinte, os Janjaweed vieram até nossa vila. Colocaram fogo em todas as casas e mataram mulheres, homens e crianças.''

O depoimento é de um sudanês idoso da vila de Babarh, na parte Sul de Darfur, uma região do tamanho da França que vive a mais grave crise humanitária do planeta. Ele tinha recém-chegado ao campo de Kalma, onde estão cerca de 100 mil dos 2 milhões de deslocados internos que a situação já produziu nos últimos dois anos.

Para os poucos que restaram nas vilas, não há garantia de segurança. Para os que estão nos campos de refugiados, não há água e comida suficiente. A ONU estimou recentemente que 180 mil pessoas já morreram com a crise por doenças e má-nutrição, uma estimativa que está sendo considerada conservadora por especialistas e que não conta as vítimas da violência.

Como se não bastasse, a ONU retirou, na semana passada, todo o pessoal da região, depois que os funcionários receberam ameaças dos temidos Janjaweed - uma milícia árabe que conta com apoio, dinheiro e armas do governo sudanês e foi formada para combater os rebeldes separatistas do Sul, na ''antiga'' guerra civil do país. O conflito, que durou 20 anos, terminou oficialmente em 10 de janeiro de 2005, com mais de 2 milhões de mortos e o acordo de paz assinado entre as partes. O armistício teve o aval in loco do então secretário de Estado americano, Colin Powell, o mesmo que, no ano anterior, qualificou a situação em Darfur como de ''genocídio''.

Se a guerra civil acabou, é porque se transformou em limpeza étnica, uma na qual milícias árabes, com o aval do poder público do Norte, atacam e eliminam a população africana do Sul.

- Esperança? Nós não temos elementos hoje para pensar nisso - afirmou, de Cartum, ao JB, Lorenda Brander, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que opera em Darfur. - É uma crise humanitária. A violência é diária e a população está sofrendo.

Enquanto isso, o Conselho de Segurança da ONU faz ''resoluções''. Já fez três sobre a situação e atualmente debate o teor de mais uma.

Depois do Holocausto (6 milhões de judeus mortos pelo nazismo); depois que o presidente George Bush (pai) liderou a primeira intervenção no Iraque - daquela vez uma verdadeira coalizão que marcou o que a Casa Branca chamou de uma ''nova era'' do pós-Guerra Fria -; depois dos fracassos na contenção das mortes na Bósnia (200 mil) e em Ruanda (800 mil); e também da ''coalizão'' de Bush (filho) contra as armas de destruição em massa de Saddam Hussein; o mundo ainda não sabe como lidar com catástrofes humanitárias em territórios nacionais e soberanos.

- Os russos vendem armas para Cartum, vendem os aviões Antonov que até pouco tempo bombardeavam a população africana. Os chineses têm negócios com o petróleo do Sul sudanês. Além disso, os governos em Moscou e Pequim são muito receosos à idéia de intervenções internacionais em ''assuntos internos''. Ao mesmo tempo, a União Africana não quer estrangeiros atuando em problemas deste tipo na África e não tem a estrutura para lidar como uma crise dessas. E dos Estados Unidos todos desconfiam depois da última intervenção no Iraque - afirmou, de Washington, Cherryl Igiri, especialista na região do Conselho americano de Relações Exteriores. - São muitos os obstáculos para uma ação internacional em Darfur.

Após 20 anos de guerra civil entre o Sul e o Norte, Darfur agora tem o seu próprio conflito e seus próprios separatistas. Ao mesmo tempo em que o Sudão ignora as determinações da ONU de desarmar as milícias.

- Nós não fazemos política. Nos preocupamos em atender as pessoas - diz Lorenda Brander, da Cruz Vermelha.


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[20/MAR/2005]


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