NOVA YORK -
Documentos obtidos junto ao Exército americano e divulgados ontem revelam novos casos de tortura cometidos por soldados dos EUA no Iraque e no Afeganistão, indicou ontem a União Americana pela Liberdade Civil (Aclu, na sigla em inglês). Entre os arquivos, há o relato de um detido que ficou seriamente ferido após um interrogatório, mas foi forçado a retirar as acusações para ser libertado.
De acordo com o relatório, soldados americanos destacados na região esconderam os casos de maus-tratos, mesmo depois do escândalo na prisão iraquiana de Abu Ghraib, no ano passado. Além disso, a investigação de cerca de mil páginas a que a Aclu teve acesso depois de uma longa batalha judicial, indica que várias fotografias tiradas por membros do 22º Batalhão de Infantaria, no Afeganistão, foram propositadamente destruídas para justamente evitar outro escândalo.
A investigação teve início a partir da descoberta de um CD com fotos de abusos em um centro de detenção afegão. Nas imagens, são vistos soldados apontando pistolas e rifles M-4 para as cabeças e costas de prisioneiros detidos e amarrados, além de prisioneiros com a cabeça pressionada contra grades das celas.
Os casos foram registrados no principal centro de detenção no Afeganistão, perto de Cabul, e também em outra instalação americana, menor, na cidade de Kandahar (Sul).
No dossiê, o detido, que afirma ter tido que retirar a acusação para ser libertado, conta que três interrogadores americanos trajando roupas civis deslocaram seus braços e colocaram uma arma descarregada em sua boca e apertaram o gatilho. Além disso, o sufocaram com uma corda até perder a consciência e lhe bateram com um taco de beisebol.
''Depois que me amarraram na cadeira é que me deslocaram os dois braços. Ele [o interrogador]pediu que eu falasse antes que me matasse, e então me bateu mais e mais'', disse o prisioneiro na declaração. ''Ele me perguntava: Você vai me acusar? Você não tem provas. Então me bateu muito forte no nariz até quebrá-lo e começar a sangrar''.
O detido retirou as acusações em 23 de novembro de 2003, depois que lhe disseram que não seria libertado se não o fizesse.
''Me falaram: você vai ficar na prisão por muito tempo e não sairá até completar 50 anos'', indica o documento.
Um exame feito por um médico do Exército confirmou os relatos do prisioneiro, mas as investigações foram arquivadas em outubro porque, segundo o texto, ''falharam em provar ou refutar as ofensas''.
- Esta é uma prova ainda maior de que o Exército não está investigando seriamente depoimentos críveis de abuso - disse Jameel Jaffar, advogado da Aclu.
Outros casos revelados nos arquivos divulgados ontem dão conta de que autoridades de alto escalão da seção de Operações Psicológicas no Afeganistão testemunharam ataques indiscriminados por parte das Forças Especiais contra civis. O depoimento se referia a operações realizadas em maio de 2004, nos vilarejos de Gurjay e Sukhagen. Os maus-tratos incluiam golpes na cabeça, no pulmão, nas costas e no estômago e ameças de que atirariam. A investigação levada a cabo a partir destas denúncias também foi arquivada, citando a mesma incapacidade de comprová-las ou refutá-las, pela impossibilidade de entrevistar as vítimas.
Advogados da Aclu e de organizações de defesa dos direitos humanos se apresentarão à Justiça no próximo dia 22 de fevereiro para discorrer sobre o papel do Departamento de Defesa na resposta aos casos de maus-tratos. A Aclu também pleiteia a divulgação das cerca de 21 mil páginas de documentos sobre o tema, que atualmente são mantidas confidenciais pelo departamento.
- Eles continuam a montar uma barreira e a reter inapropriadamente milhares de documentos - disse Jaffer. - Surpreendentemente, parece ser a visão do departamento de que o público simplesmente não tem o direito de saber quais são suas políticas ou quem as coloca em prática - acrescentou.