Diretor de escola pública nos EUA vai ler manifesto criticando a teoria da evolução darwiniana. Pais prometem briga judicial
Às vésperas da posse do presidente dos Estados Unidos, George Bush, para um segundo mandato - apoiado por grupos conservadores e religiosos - foi anunciado que a briga entre darwinistas e criacionistas nas escolas americanas terá mais um round, na semana que vem. O diretor de uma escola pública em Dover, na Pensilvânia, vai ler aos alunos um manifesto onde afirma que o pensamento evolucionista de Charles Darwin, obrigatório no currículo escolar, ''é só uma teoria, não um fato''.
''Há brechas nessa teoria que não podem ser demonstradas'', diz a declaração. O texto sugere como alternativa a idéia de que um ''design inteligente'' teria criado os seres vivos tal como agora os conhecemos, sob a explicação de que a vida é complexa demais para ter sido criado ao acaso.
- A polêmica é uma questão complexa, ligada ao livre exercício de princípios e à não intromissão do Estado na elaboração de pensamentos, protegido pela Primeira Emenda da Constituição americana - explica ao JB Stephen Elliott, diretor-executivo do Council for America's First Freedom (CAFF), uma organização não-governamental que promove debates de assuntos relacionados à separação entre o Estado e a Igreja.
Segundo Elliott, a polêmica acontece porque um lado da questão argumenta que uma ''crença religiosa'' está sendo estabelecida nas escolas públicas, que são espaços de atuação do governo e do conselho da diretoria, que é eleito pelos pais dos alunos.
- Seria a institucionalização de uma religião pelo Estado por meio das escolas, em violação à Primeira Emenda. Por outro lado, os grupos religiosamente motivados argumentam que suas opiniões devem ser ouvidas pelos mesmos instrumentos do governo e das escolas - afirmou.
A iniciativa do diretor de ler o texto nas salas de aula surgiu no momento em que os professores da escola se recusaram a fazê-lo. A orientação de leitura veio do conselho de diretoria.
Nos EUA, o ''criacionismo'' - a teoria de que a vida foi criada por um Ser inteligente - como disciplina escolar está proibido desde 1987. A Justiça do país determinou que o ensino violaria a separação entre a Igreja e o Estado. Mas conservadores vêm ganhando terreno na briga, em especial depois de sustentarem a reeleição de Bush.
Descontentes com a eclesial educação dos filhos, um grupo de pais resolveu abrir um processo judicial, que colocará em confronto a direita cristã e a União para as Liberdades Civis (Aclu), o maior grupo pró-direitos civis dos EUA.
Segundo o diretor jurídico da Aclu na Pensilvânia, Witold Walzack, o ''design inteligente é um ataque à evolução'':
- O que esta gente propõe é permitir que a fé, os milagres e os criadores sobrenaturais sejam considerados ciência.
Já a escola em Dover alega que a sentença de 1987 não deve afetar o ensino da doutrina do ''design inteligente'', porque esta não seria uma idéia religiosa em si, mas uma alternativa às teorias de Darwin.
- A religião não tem nada a ver com o design inteligente. O que digo é que não há provas que confirmem a teoria da evolução - afirma o ex-professor de química e partidário do conselho escolar, Carl Jarboe.
Jarboe e o conselho escolar de Dover não estao sozinhos. Uma pesquisa publicada pelo The New York Times pouco antes das eleições de novembro revelou que 55% dos americanos acreditam que o ser humano foi criado por uma entidade divina. Cerca de 65% apóiam o ensino do criacionismo junto com a teoria da evolução.
Mas recentemente, um juiz federal ordenou que as escolas da Geórgia retirassem os adesivos colados nos livros de biologia desde 2002, nos quais se dizia que ''a evolução é uma teoria, não um fato'' e como tal deveria ''ser estudada cuidadosamente e avaliada de maneira crítica''. Clarence Cooper julgou que os adesivos não só violavam o Estado laico ao transmitir ''uma mensagem de apoio à religião'', como também a Constituição da Geórgia, que proíbe o uso de verbas públicas para promover a religião.
- Todos estas discussões mostram o quanto temos que coletivamente conseguir interpretar o significado e os parâmetros da liberdade religiosa nas sociedades livres - concluiu Elliott.