Annan e Bush duelam na ONU

Crítica de secretário-geral ofusca fala do presidente americano, que tentou justificar as ações no Iraque e no Afeganistão

Arthur Ituassu

[22/SET/2004]

O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, repreendeu com veemência os Estados Unidos ontem no discurso que fez no primeiro dia do encontro de duas semanas que reúne os 191 membros da organização, em Nova York. Annan condenou a estratégia americana de ataques preventivos, reclamou do processo de marginalização das Nações Unidas e apontou para os problemas que são causados pelo comportamento unilateral do atual governo dos EUA.

Bush, que também discursou na Assembléia, mas depois de Annan, procurou justificar a intervenção no Iraque e pediu mais apoio dos países e da ONU às ações contra o terror.

- As relações entre a ONU e a Casa Branca são hoje muito tensas - afirmou, ao JB, Roberta Cohen, especialista em Nações Unidas da Universidade Johns Hopkins, em Washington. - As cabeças do governo Bush não dão muita importância às instituições internacionais. Eles levaram à frente um processo claro de marginalização das organizações com ações tipicamente unilaterais - completou.

Depois de dizer, na semana passada, que a guerra no Iraque era ''ilegal'', por ter sido lançada sem o aval da ONU, Annan voltou a criticar com força o governo de George Bush.

- Ninguém está acima da lei. Aqueles que procuram legitimidade devem também respeitá-la. Aqueles que invocam o direito internacional devem também preservá-lo. A lei é mais que um conceito. Leis devem ser postas em prática e permear nossas vidas - afirmou o secretário-geral. - Nestes tempos difíceis, as Nações Unidas são um lugar indispensável. Mais do que nunca, o mundo necessita de um mecanismo eficaz pelo qual possa buscar soluções comuns para problemas comuns. Para isso é que esta organização foi criada - afirmou.

Sobre os ataques preventivos, Annan foi claro ao dizer que ''o direito não pode ser derivado da força, mas a força deve se originar no direito''.

- É uma referência explícita aos ataques preventivos - explicou Karen Grass, pesquisadora do Instituto Brookings, na capital americana. - Ao mesmo tempo, o secretário-geral deixou claro que o uso da força sem legitimidade não é algo que interessa aos EUA. É um modelo perigoso que abre um precedente complicado - completou.

Annan citou a situação em Darfur (Sudão), em Uganda, a tragédia de Beslan (Ossétia do Norte), e, principalmente, no Iraque, onde ''civis são massacrados a sangue frio, trabalhadores humanitários e outros não combatentes são seqüestrados e executados de maneira bárbara'' e onde ''se vê prisioneiros iraquianos sendo vítimas de ações escandalosas''.

Além de pedir o apoio à comunidade internacional e tentar justificar a invasão do Iraque, Bush pediu aos países que suspendam relações com o líder palestino Yasser Arafat e exortou o Sudão a respeitar o cessar-fogo em Darfur. A seis semanas da eleição, o presidente americano, cujo discurso foi pouco aplaudido, disse que o século 21 será o ''século da liberdade''.

- A resposta apropriada no Iraque não é se retirar, mas vencer. Quero afirmar que continuaremos a lutar no Iraque e no Afeganistão até que a liberdade e a segurança destes povos estejam garantidas - afirmou Bush, numa declaração que pareceu voltada para o público interno americano.

Sobre Arafat, o presidente afirmou que o mundo ''deveria deixar de apoiar os líderes palestinos que traem a causa de seu povo''.

- A paz não será possível com dirigentes que intimidam a oposição, toleram a corrupção e têm vínculos com terroristas.

Bush também pediu a Israel que se esforce para aplicar o ''Mapa do Caminho'', o plano de paz mais recente para a região, hoje paralisado.

- Israel deve parar a colonização, desmontar assentamentos ilegais e acabar com as humilhações contra os palestinos.

Além disso, defendeu um ''esforço global pela democratização do Oriente Médio'', depois de dizer que Iraque e Afeganistão ''serão um modelo'' para a região.

- Temos de ajudar os que querem construir uma comunidade de nações democráticas e pacíficas - declarou o presidente americano, que insiste em impor um conceito particular de democracia sobre a visão coletiva, o oposto do que prega a ONU.

Para Roberta Cohen, Bush pareceu responder a Annan.

- Ele procurou buscar legitimidade, o apoio da lei. Tentou se justificar mas é muito difícil com o atual estado das relações da Casa Branca com a ONU e com o mundo - disse Cohen.

Já Karen Grass acha que Annan deu seu recado.

- Ele foi crítico do seu jeito. No fundo disse: 'olha, se você afirma que temos de respeitar a lei e a democracia, então você também tem de agir assim' - definiu a pesquisadora.

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