PORTO PRÍNCIPE -
Soldados brasileiros da força de paz da ONU para o Haiti, a Minustah, entraram pela primeira vez em ação na segunda-feira, quase três meses depois de terem assumido o comando da missão. A tropa atuou no resgate do secretário de Assuntos Estrangeiros da França, Renaud Muselier, cercado sob ataque de pedras de uma gangue, em um hospital que visitava na favela de Cité Soleil, em Porto Príncipe. Policiais haitianos atiraram para o alto, na tentativa de dispersar a multidão, iniciando um tiroteio.
A autoridade e sua comitiva, que também era protegida por gendarmes, só conseguiram sair do hospital depois que os soldados brasileiros chegaram, com dois blindados e dois helicópteros. Uma pessoa da gangue morreu e dois policiais, um haitiano e um francês, ficaram feridos.
- Colocaram barragens para impedir minha saída do hospital - contou Muselier, que criticou a ação da polícia haitiana, por ter usado arma de fogo no meio da manifestação. O francês estava em viagem oficial de dois dias pelo país mais pobre das Américas e já voltou para Paris.
Ao jornal francês Le Figaro, o secretário de Estado saudou ''a coragem, o sangue-frio e a eficácia profissional das forças de ordem da ONU, nesta situação particularmente delicada''.
Situações de tensão também acontecem no Sul do Haiti, na cidade de Petit-Goâve, onde no fim de semana entre 100 e 150 ex-militares tomaram o controle da delegacia local. Na terça-feira, o grupo saiu às ruas, numa tentativa de ''ganhar a confiança da população''.
Mas, segundo o líder do partido Lavala (do presidente deposto Jean-Bertrand Aristide(, Sidney Claudy, os ex-militares estão ameaçando partidários de Aristide na cidade. Há relatos de que simpatizantes do ex-presidente tiveram que fugir de Petit-Goâve, que é protegida pela Minustah.
- Nossos militantes são os principais alvos desde criminosos - afirmou Claudy.
Os ex-militares estariam exigindo que o governo do primeiro-ministro interino Gerard Latortue restabeleça as Forças Armadas haitianas, dissolvidas por Aristide na década de 90. Eles também reclamam pagamento de soldos relativos a esta época. Mas o ex-sargento Ravix Rémissainthe, que comanda as forças em Petit-Goâve, afirmou que seus homens não querem ''fazer pressão sobre o governo de transição, como pretendem certas pessoas''.
- O movimento visa, sobretudo, assegurar a segurança da população. Os militares patrulham as ruas dia e noite - afirmou Rémissainthe.
Segundo o comando da Minustah, Petit-Goâve sofre com casos de assaltos, roubos e seqüestros-relâmpago.
Na segunda-feira, a população impediu que uma delegação oficial entrasse na cidade para negociar com os ex-militares. Rémissainthe anunciou então a formação de uma equipe para ir a Porto Príncipe e conversar com o governo ''sobre a questão da pensão retroativa dos militares''. Mas Latortue, apesar de se mostrar disposto ao diálogo, lembrou que sua administração não tem ''mandato para - nem maneira - reconstituir as Forças Armadas''.
Por sua vez, o ministro da Justiça, Bernard Gousse, afirmou que não deixará ''ninguém e setor nenhum humilhar a força policial''.
Em Jacmel (Sudeste), o porta-voz dos militares desmobilizados, o ex-sargento Prophète Bervil, afirmou que os antigos soldados estão prontos para trabalhar com a polícia ''para desarmar as gangues que operam na zona''.
Na tarde de terça, pouco mais de mil simpatizantes do partido Lavala marcharam pelas ruas da capital. Os manifestantes pediram a volta de Aristide, que está exilado na África do Sul.