Espanha busca vestígios do passado

Parentes das vítimas do franquismo lutam por apoio do governo à exumação dos 30 mil corpos enterrados em fossas comuns

Julia Sant'Anna

Repórter do JB

Famílias de milhares de desaparecidos durante a Guerra Civil Espanhola podem receber esta semana uma boa notícia depois de mais de seis décadas de luta em busca de informações sobre seus parentes.

O governo da Espanha tem até sábado para responder a uma resolução do Grupo de Trabalho sobre Desaparecimento Forçado da ONU pedindo explicações sobre o paradeiro de 65 pessoas desaparecidas durante os anos de luta entre as forças nacionalistas e rebeldes, comandadas pelo general Francisco Franco, e os membros da Frente Popular.

A Associação de Recuperação da Memória Histórica (ARMH), que lidera uma campanha pela exumação dos corpos das vítimas do franquismo, pediu à ONU que intercedesse junto ao governo buscando um apoio nacional à iniciativa.

O atual governo, de centro-direita, é criticado por sua demora em apoiar projetos voltados a elucidar os mistérios do passado.

- Há muitos vínculos familiais entre autoridades do governo e os antigos franquistas - disse Emílio Silva, presidente da ARMH ao JB. - O presidente da Comunidade Autônoma da Galícia, Manuel Fraga, foi ministro de Franco.

Segundo Silva, o ministro da Defesa, Frederico Trillo, é filho do prefeito franquista de Cartagena durante a guerra.

- A lei de anistia de 1977 pretendia beneficiar os presos políticos de esquerda, mas os verdadeiros beneficiados foram os dirigentes do franquismo - lamenta ele.

A ARMH surgiu da curiosidade de Emilio Silva em recuperar os restos do avô, Emilio Silva Faba, líder esquerdista de Villafranca del Bierzo (Noroeste) morto por franquistas aos 44 anos.

A fossa onde Faba foi enterrado junto com outros 12 fuzilados foi encontrada em 2000 com a ajuda de Francisco Cubero, 85 anos. Em outubro de 1936, Cubero era apenas um membro da Juventude Socialista e foi obrigado a enterrar seus aliados na cidade de Priaranza.

Acredita-se que existam cerca de 80 fossas na comarca de Bierzo. Moradores da região, no Oeste de León, costumam dizer que lá há mais mortos fora que dentro dos cemitérios.

Em outubro de 2000, os corpos dos chamados ''Treze de Priaranza'' foram exumados e, desde então, a ARMH já recebeu mais de 3 mil pedidos de exumação feitos por parentes das vítimas.

- Até agora exumamos 56 corpos. Destes, 36 já foram identificados por estudos forenses cruzando informações dos parentes - explica Silva. - Nove dos demais corpos estão sendo examinados agora.

Outras exumações, nos arredores de El Bierzo e Babia, foram feitas com a ajuda da ONG Serviço Civil Internacional e dois dos nove exames de DNA foram doados pela Universidade de Granada.

- Os outros sete foram pedidos pela primeira vez na Espanha por uma juíza de Villablino (León) - comemora Silva, à espera da ajuda de Madri.

[23/FEV/2003]

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