Chanceler brasileiro afirma que personalidade do diplomata ajudou em sua queda
BRASÍLIA -
O chanceler Celso Lafer admitiu ser irreversível o impeachment do diretor-geral da Organização para a Proibição das Armas Químicas (Opaq), o embaixador brasileiro José Maurício Bustani, como informou ontem o colunista da
JB Ricardo Boechat. Lafer ressaltou que o Itamaraty fez todos os esforços diplomáticos ''possíveis'' para refutar as críticas encabeçadas pelos Estados Unidos à gestão de Bustani: ''Mas sempre no plano multilateral, pois ele exerce uma função pública internacional, e não representa o governo brasileiro''.
Lafer não quis computar todos os votos contra a permanência de Bustani na Secretaria-Geral da Opaq. Mas confirmou que os Estados Unidos têm o apoio dos países da União Européia, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), dos pretendentes a ingressar na OTAN e dos principais países asiáticos, como o Japão e a Coréia. A seu ver, ''a personalidade'' do diplomata brasileiro, que fez declarações públicas não muito diplomáticas, foi ''uma dificuldade adicional''.
''Desde o início - disse o chanceler -, o Itamaraty deixou claro que a questão não deveria sair do âmbito multilateral para o bilateral. O secretário-geral da Opaq jamais recebeu instruções do governo brasileiro, nem podia, por ser funcionário público internacional. Ao defendê-lo, não estamos dendendendo uma pessoa, mas o multilateralismo'', disse Lafer.
Tradição - Com relação ao interesse especial do Brasil pelo caso, o chanceler lembrou que não se poderia ficar ausente do debate, numa organização que controla armas de destruição em massa. ''Mas não é da tradição do Brasil - como já dizia o ex-chanceler Saraiva Guerreiro - dramatizar a agenda da política externa. Nós não temos excedentes de poder e devemos saber usá-los com sabedoria'', comentou.
Celso Lafer citou casos semelhantes enfrentados pelo Egito, quando Boutros Boutros-Ghali foi afastado da Secretaria- Geral das Organizaçõs das Nações Unidas, e da resistência atual à continuidade da gestão de Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda, no Alto Comissariado dos Direitos Humanos da ONU.
Os Estados Unidos pediram o afastamento de Bustani no dia 19 de março, acusando o diplomata brasileiro de incompetência administrativa. Em outra versão, Bustani teria irritado os americanos ao negociar a ida a Bagdá de inspetores de países fora da órbita de Washington.