'Os EUA querem controlar a Opaq'

RODRIGO ROSA

n Elson Soares - BG Press/AJB
José Maurício Bustani

José Maurício Bustani recusou o rótulo, imposto pelos EUA, de mau gerente da Organização para a Proscrição de Armas Químicas

BRASÍLIA - O diretor-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq), o diplomata brasileiro José Maurício Bustani, desembarcou no Brasil, ontem, com quase quarenta graus de febre. Transpirava revolta diante das pressões dos EUA e seus aliados, principalmente a Alemanha e o Japão, para deixar o comando da entidade, acusando-o de incompetência administrativa. No país para um seminário contra a proliferação de armas químicas, Bustani, que recebeu o Jornal do Brasil para uma entrevista exclusiva, sabe que, embora os americanos tenham sofrido uma derrota ao pedir sua destituição do Conselho Executivo da Opaq, sexta-feira, seu posto está fatalmente ameaçado. Bustani rebateu as críticas e acusou a política internacional do presidente George W. Bush de unilateral.

- Qual será o próximo passo dos EUA?

- Será é a realização de uma conferência geral na qual os americanos tentarão e conseguirão os votos para que eu seja afastado da organização. A vitória de semana passada foi pequena em relação ao que vem pela frente.

- Vários países criticam sua gestão na Opaq, mas os 145 membros da entidade o reelegeram por unanimidade há um ano. O que mudou?

- Apenas um país, os Estados Unidos, faz críticas à minha gestão. Os demais estão com medo de que os EUA se retirem da organização no caso de eu continuar. Pressionados pelos americanos, passaram a pedir a minha saída.

- O senhor vai renunciar?

- Não. Não há pressão que me faça renunciar. Vou até o fim. Mas vou de cabeça erguida porque não fiz nada de errado. Eu não posso sair por pedido, nem por acusações completamente infundadas por parte de um país. Apesar desse país, com seu rolo-compressor, ter levado o resto dos países europeus, exceto a França, a fazerem a mesma coisa, inclusive a América Latina. Tenho a impressão de que é a primeira vez na história das relações internacionais do Brasil que um candidato brasileiro não ter apoio dos outros países latino-americanos.

- O senhor sentiu falta de apoio do Itamarati?

- Não sei... Essa pergunta deve ser feita ao ministério das Relações Exteriores. Eu não posso responder por eles. Sou funcionário internacional. Não tenho contato nem com a embaixada do Brasil.

- Os planos da Opaq serão prejudicados se o senhor sair?

- Garanto que a Opaq irá passar por uma crise séria e levará muito tempo para se recuperar. O pessoal que lá está não tem preparo. E quem me substituir, provavelmente o australiano que é vice-presidente da organização, será visto como alguém que os americanos colocaram lá.

- Como o senhor avalia sua gestão?

- Sem modéstia, como exemplar. Encontrei uma organização mal-preparada. Tive de começar do zero, limpá-la de uma série de promiscuidades e de indisciplinas entre funcionários de outros países que não estavam capacitados. Tenho orgulho do que fiz. A organização não está num estado perfeito, mas está muito melhor que antes. A prova disso é que fui reeleito um ano antes de terminar meu primeiro mandato.

- Mas o senhor foi acusado de má-gestão financeira...

- Não é nada disso. São os Estados Unidos que não pagam suas contribuições. Nem o Japão, nem a Alemanha. Ano passado, os EUA pagaram a contribuição deles em outubro. Não se pode planejar um programa de trabalho com um dinheiro que só vai entrar em outubro. Este ano, não pagaram ainda nem metade.

- E o Brasil?

- Também não pagou. Nem o Japão, nem a Alemanha. Você quer que eu faça o quê? Inspecionar custa dinheiro. Apesar de tudo isso, consegui fazer mais de 1.200 mil inspeções em 50 países desde 97. Consegui fazer uma série de programas de cooperação internacional em benefício de países em desenvolvimento.

- Porque os EUA votaram a favor de sua eleição, há um ano, e agora mudaram de idéia?

- Porque é outra administração que está controlando Washington (Bustani foi reeleito ainda na gestão de Bill Clinton). A visão desta administração em relação a organizações internacionais é unilaterista. Organização internacional, para eles, só tem sentido do ponto de vista deles, quando eles podem ter o controle completo da gestão. Em um organismo com 145 membros, costumo dizer que tenho 145 patrões. Não posso fazer nem implementar posições de apenas um membro, ainda que seja o mais importante e que pague mais que os outros.

- Os EUA mudaram a posição sobre a não-proliferação de armas químicas depois dos atentados de 11 de setembro?

- Mudaram nitidamente a partir de junho do ano passado com a indicação do novo subsecretário de Estado para controle de armas, John Bolton. O que falta a ele de competência, sobra em ideologia fanática antidesarmamento, a favor da proliferação. Ele é contra todas as organizações internacionais. Foi ele que lançou a campanha contra mim.

- Os EUA também o acusam de favorecer o Iraque. O que o senhor a dizer disso?

- Uma das condições do mandato da conferência da Opaq é que eu devo trazer todos os países que estão fora da organização para dentro. Quando fui eleito, havia 87 países. Já há 145. Exigiu um trabalho enorme trazer o Irã, o Sudão e a Líbia, que entra daqui a um mês. O único que não consegui trazer ainda foi o Iraque. Mas tenho contato sistemático para trazê-los. Já que Saddam Hussein recusa as inspeções da Organização das Nações Unidas, o jeito é arranjar um tipo. Há três anos nossos inspetores visitaram o Iraque e conquistamos sua confiança. Os EUA, claro, não gostaram nada disso.

[25/MAR/2002]

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