EUA forçam demissão de brasileiro que chefia órgão da ONU para armas químicas e irritou Bushao dialogar com Iraque
O brasileiro José Maurício Bustani, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Proscrição de Armas Químicas (Opaq), reagiu ontem, à ofensiva dos Estados Unidos, que vêm pedindo a sua destituição do cargo com base em divergências sobre o Iraque, como publicou ontem o
Jornal do Brasil. Bustani conseguiu impedir a realização da votação da moção de não-confiança apresentada contra ele pelos americanos e, em discurso lido pela manhã, fez um apelo ''ao diálogo e à cooperação'', defendendo a independência da diretoria-geral da organização.
Os 41 membros do Conselho Executivo da Opaq, reunidos desde terça-feira, voltam a se encontrar hoje, às 10h, no último dia de debates sobre o caso, previstos para durar até às 18h, hora local - 22h, no Brasil. ''Fui acusado de má administração financeira, desmoralização do secretariado técnico e de levar à frente iniciativas maléficas à organização'', declarou o diretor-geral. ''São questões sérias que devem ser tratadas de modo a permitir um processo de diálogo e cooperação que traga um fim aceitável para todos''.
Para responder à ofensiva americana, o brasileiro sugeriu que o órgão convide uma equipe independente para uma revisão de sua administração. ''Este seria o modo mais fácil de resolver o problema'', afirmou, questionando também a legalidade da proposta dos EUA. ''Gostaria que os senhores considerassem o seguinte: há bases legais para esta ação?''.
Em Haia, o Brasil demonstrou apoio às iniciativas apresentadas por Bustani. ''A delegação foi instruída a circular projeto de decisão com vistas à constituição de um Comitê Extraordinário destinado a rever, de forma isenta e independente, a gestão do Diretor-Geral à frente da Organização'', afirmou o Itamaraty, em nota divulgada à imprensa. Além disso, o país defendeu a posição de que ''o Conselho Executivo da Organização não tem autoridade jurídica para considerar a iniciativa de destituição''.
Regras - O porta-voz do brasileiro, Gordon Vachon, pelo telefone, explicou que a moção de não-confiança é um expediente que não faz parte das regras da Opaq. Se posta em votação, e aprovada, pode no máximo ser vista como uma recomendação do Conselho Executivo para que Bustani renuncie. ''O que ele não vai fazer'', afirmou.
Outra possibilidade é a de que uma delegação apresente um pedido oficial de destituição, o que, se aprovada, obrigaria a convocação dos 145 membros para decidir o caso em votação. Segundo o porta-voz, nenhum país apresentou até agora tal requisição.
Vachon explicou que o último dia de reunião dos membros do Conselho Executivo será decisivo. ''As delegações podem tomar o caminho do diálogo e da cooperação ou podem se decidir pela proposta americana'', explicou o porta-voz. ''Mas o diretor-geral só aceitará sua demissão se esta for a vontade da Assembléia Geral''.
Segundo diplomatas ouvidos pelo JB anteontem, a irritação de Washington com Bustani tem por base negociações levadas à frente pelo brasileiro com relação à formação de uma equipe de inspeção de armas químicas - com fiscais fora do crivo de Washington - para agir no Iraque, o que prejudicaria os planos bélicos da Casa Branca contra Bagdá. Além do Brasil, as delegações de China, Rússia e Paquistão defenderam Bustani, que tem também ao seu lado países como Índia, Cuba e Irã. Os EUA têm os votos dos europeus, além de Canadá e Austrália.