Brasileiro desafia poder dos EUA

Diplomata que chefia órgão da ONU para armas químicas atrapalha estratégia de Bush para justificar ataque ao Iraque

ARTHUR ITUASSU

Por trás da campanha aberta pela destituição do brasileiro José Maurício Bustani do cargo de diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Proscrição das Armas Químicas (Opaq), oficializada pelos Estados Unidos, terça-feira, há um alvo claro, o Iraque. Diplomatas consultados pelo Jornal do Brasil confirmaram que a pressão de Washington contra Bustani, hoje, é parte da ofensiva diplomática que prepara o terreno para um ataque a Bagdá, já que o brasileiro tornou-se um empecilho à legitimidade dos planos americanos contra Saddam Hussein.

''É aquela típica história do ninguém quer que dê certo'', disse um funcionário do Ministério brasileiro das Relações Exteriores. O diplomata explicou que o problema, para os EUA, é que o ''dar certo'' seria a ida - ou mesmo apenas uma oferta - de uma comissão de inspetores da Opaq, não dominada por representantes americanos, ao Iraque, para fiscalizar a produção de armas de destruição de massa neste país, que se tornou membro da organização durante a gestão de Bustani.

As credenciais multilaterais das ações levadas a cabo pelo brasileiro endossam a informação de que ele vinha, de fato, negociando o envio de inspetores recrutados nos quadros da Opaq - escolhidos fora do crivo de Washington - ao Iraque. O ok de Bagdá, dado como certo, seria uma ducha de água fria nos planos belicosos dos EUA. ''Bustani agia em favor de um diálogo com os iraquianos e isso, no atual contexto, irritou profundamente os americanos'', reforçou outro diplomata do Itamaraty.

Veto - Não é a primeira vez que EUA e o diretor da Opaq entram em atrito, tendo o Iraque como pivô indireto. Em 1998, a Casa Branca vetou dois inspetores de uma comissão montada pela organização para fiscalizar as armas químicas produzidas por Washington. O motivo? Um dos fiscais era iraniano, o outro cubano.

A ação dos EUA foi respaldada pelas regras da ONU. Qualquer país tem mesmo direito de rejeitar determinados inspetores com base em quesitos como ''experiência e nacionalidade'', mesmo que escolhidos no quadro de funcionários permanentes da organização. Mas a justificativa legal não poupou os ouvidos de Washington de reclamações. ''São altamente treinados e qualificados. Foram recrutados por nós e não respondem aos seus governos'', explicou, naquele ano, o porta-voz da Opaq.

O problema se tornou ainda maior quando surgiu a lembrança de que o mesmo argumento fora utilizado pelo outro lado. Ainda em 1998, um diplomata asiático declarou: ''Ironicamente, os EUA, estão usando o mesmo direito pelo qual os iraquianos estão brigando''. Fato é que Bagdá impede a entrada de uma comissão da ONU no país, alegando até hoje que a equipe não pode ser formada essencialmente por ''anglo-saxônicos'', nas palavras do governo iraquiano.

Um grupo reunido pela ONU, de 44 inspetores liderados pelo americano Scott Ritter - que serviu na Guerra do Golfo - foi impedido por Bagdá de trabalhar em janeiro de 1998. A equipe tinha 28 especialistas em armas, sendo 10 deles dos EUA e cinco da Grã-Bretanha.

Stalin - Sobre o pedido feito pelos americanos contra o diretor da Opaq, o Itamaraty oficialmente declarou ontem que vai lutar pelo cargo de Bustani. ''Achamos que esta não é uma causa perdida'', disse um porta-voz. Alegando ''má administração'', Washington pediu a ''remoção imediata'' de Bustani. Teve o apoio da Europa, mas não de Rússia, China e Índia, que se mantiveram com o brasileiro. ''Essa frase, remoção imediata, me lembra um personagem. Sabem qual é? Stalin'', criticou o representante russo na última reunião da organização, referindo-se ao ditador comunista.

[21/MAR/2002]

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