Quinta-feira, 1 de Novembro de 2001
ONU busca caminho para Afeganistão

Luta pelo poder e resistência à recepção de refugiados são os obstáculos encontrados pelos enviados das Nações Unidas

AFP
Abdul Zaeef

O embaixador talibã Abdul Zaeef: críticas a enviado da ONU

ISLAMABAD E TEERÃ - As Nações Unidas incrementaram seu já grande envolvimento na questão afegã, com as visitas do alto comissário para os Refugiados, Ruud Lubbers, ao Irã, e do enviado especial para o Afeganistão, Lakhdar Brahimi, ao Paquistão, onde estão sendo avaliadas as perspectivas da oposição ao regime talibã. A situação encontrada por ambos é difícil: Lubbers não conseguiu vencer a resistência de Teerã a abrir suas fronteiras à massa de refugiados que querem deixar o Afeganistão e Brahimi encontrou em Islamabad pouca união entre os numerosos líderes da oposição.

Brahimi - que havia deixado cargo em 1999, alegando falta absoluta de condições para conciliar as posições dos talibãs com as da oposição - encontrou-se na capital paquistanesa com diversos representantes políticos, sociais e religiosos da numerosa comunidade afegã exilada. Seu trabalho é tentar chegar a uma posição de consenso entre estes líderes, a maioria da etnia dominante, os pachtuns, e os da Aliança do Norte, formada por tajiques, uzbeques e hazaras, sobre qual deve ser a estrutura de governo do Afeganistão pós-talibãs.

Negativas - ''Um dos problemas-chave é que atualmente não vemos o surgimento de uma fórmula para que aqueles que empunham armas deixem de almejar ter sob seu poder o resto do país'', afirmou Brahimi depois de dois dias de reuniões com líderes afegãos no Paquistão. O enviado da ONU rejeitou a idéia, numa nota de apenas uma linha, de encontrar-se com a liderança talibã no momento, embora não tenha descartado que isso possa acontecer no futuro.

A negativa só serviu para irritar ainda mais o regime de Cabul, que o atacou: ''Este enviado está trabalhando pelos interesses americanos'', disse em Islamabad o embaixador talibã, mulá Abdul Salam Zaeef. ''Não vamos nos encontrar com ele e não vamos permitir que ele interfira nos assuntos internos do Afeganistão.'' Há meses os talibãs cortaram o contato com qualquer funcionário da ONU que não estivesse envolvido em atividades humanitárias, mas no início da semana Zaeef afirmou que gostaria de se encontrar com Brahimi.

O enviado da ONU chegou ao Paquistão na segunda-feira e deve seguir para o Irã hoje ou amanhã, onde deve colher as opiniões do governo local sobre o assunto. Desde o início da visita, já conversou com o presidente do país, Pervez Musharraf, com o general Ehsan ul-Haq, chefe do Serviço Integrado de Inteligência, e com líderes afegãos, mas não conseguiu consenso.

Refugiados - A situação não é melhor para Lubbers, que não recebeu de Teerã qualquer garantia de que as fronteiras iranianas estarão abertas para os refugiados afegãos, da mesma forma como aconteceu quando visitou Islamabad, dias atrás. Desde que se aventou a hipótese de bombardear o Afeganistão, logo após os atentados de 11 de setembro, o Irã adotou como política o fechamento completo de suas fronteiras com o Afeganistão, embora tenha deixado passar refugiados extra-oficialmente e colaborado com a ONU na montagem de dois campos de refugiados em território afegão. Lubbers, contudo, diz que este arranjo não é satisfatório, já que não haveria garantias de segurança dos deslocados. O Irã já abriga uma comunidade de mais de 2 milhões de afegãos.

''Tanto no Paquistão como no Irã, eu disse a mesma coisa: que a política deles é a de fronteiras fechadas e a nossa é por fronteiras abertas. Concordamos em discordar'', disse, após uma reunião com o presidente Mohamed Katami e outros representantes do alto escalão. ''De minha parte, prometo tentar conseguir fundos e assistência para que o Irã não tenha que arcar sozinho com o problema'', afirmou.

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