Quinta-feira, 1 de Novembro de 2001
Os ecos do Vietnam

R. W. APPLE JR.

The New York Times

WASHINGTON - Como espectro maldito de um passado infeliz, a agourenta palavra ''atoleiro'' começou a freqüentar as conversas das autoridades governamentais e dos estudantes de política internacional, nos EUA e no exterior. O Afeganistão pode se tornar outro Vietnam? Os Estados Unidos estão ante outro beco sem saída, no outro lado do mundo? Três semanas após o início do combate, as perguntas podem ser prematuras. Mas não são irracionais, dadas as cicatrizes deixadas na psique nacional pela derrota no Sudeste asiático.

Apesar de todas as diferenças entre os dois conflitos, são inevitáveis os ecos do Vietnam. Ontem, o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, revelou que forças militares americanas estão operando no Norte do Afeganistão, fazendo ligação com ''um número limitado de vários elementos da oposição''.

Seu papel é suspeitosamente parecido com os dos assessores enviados ao Vietnam no início da década de 1960, embora Rumsfeld tenha se esforçado para dizer das forças antitalibãs: ''Nós não vamos mandar algumas pessoas para lhes dizer que devem virar à direita, à esquerda, ir mais devagar ou mais depressa''. Na verdade, os assessores do Vietnam foram descritos mais ou menos nos mesmos termos, e o governo da época negou peremptoriamente que eles fossem um prelúdio das tropas americanas de combate.

Sinais - A guerra no Afeganistão tem decorrido menos suavemente do que muitos esperavam. E os sinais de avanço são escassos. Há uma semana, o Pentágono disse que a capacidade militar dos dirigentes talibãs no Afeganistão tinha sido arrasada pelos bombardeios aliados. Agora, algumas autoridades descrevem esses líderes como ''personagens duros'' que continuam na luta.

A Aliança do Norte, cujos generais apregoaram durante semanas que estava a ponto de tomar a importante cidade de Mazar-i-Sharif, não conseguiu fazê-lo. Nem seus tanques fizeram qualquer progresso rumo a Cabul, a capital. Abdul Haq, o soldado afegão que muitos achavam que ia unificar as facções antitalibãs, foi capturado e morto por seus inimigos assim que voltou ao país.

Vozes influentes começaram a clamar por algo mais do que bombardeios, forças especiais e ação secreta. Colunistas conservadores como Charles Krauthammer e William Kristol criticam o governo por tentar - segundo palavras de Kristol - travar uma guerra com ''meias medidas''.

Imperativo - Obviamente, os ataques terroristas em Nova York e Washington, como numerosas mortes de americanos, dariam a qualquer decisão dos EUA de despachar forças terrestres uma espécie de imperativo moral que o envolvimento americano no Vietnam não teve.

No Afeganistão, o terreno poderia ser, em alguns aspectos, mais favorável aos EUA do que no Vietnam. Os tanques podem desempenhar um papel mais importante, por exemplo. Mas a União Soviética, com bons tanques em grande número, foi imobilizada e depois derrotada por forças rebeldes afegãs.

Finalmente, no Afeganistão como no Vietnam do Sul, há uma grande pergunta sobre quem governaria se os EUA vencessem o inimigo. Washington nunca resolveu satisfatoriamente esse problema após o assassinato de Ngo Dinh Diem, em 1963, e provavelmente não será muito mais fácil resolvê-lo no Afeganistão, país propenso competições caóticas entre muitas tribos e facções.

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